sexta-feira, 8 de julho de 2016

Quem sabe, na primavera, no verão...

Quem sabe, na primavera, no verão...
Cardoso Filho

          Algo está acontecendo. Talvez seja resultado do inverno, mas o fato é que o grupo de amigos que frequento na Boca Maldita, aos sábados, encolheu. Nas manhãs frias ou chuvosas, até faz sentido a redução, e num desses dias éramos apenas três, o que, convenhamos, é desolador. A explicação para o fenômeno parece ser fácil: estamos envelhecendo. Sim, o envelhecimento nos faz mais tímidos diante de clima frio ou chuvoso e nos prende mais ao abrigo doméstico e calor agradável dos cobertores. Mas a resposta simples pode esconder mais alguma coisa.
          Tem a casa ou apartamento na praia. Sim, são concorrentes de respeito, especialmente quando espaçosos e confortáveis e situam-se no litoral do Paraná, de rápido acesso, embora nenhuma estrada brasileira, mesmo que bem cuidada, seja segura sob o excesso de carros e caminhões e a frágil repressão a infrações por excessos de velocidade e ultrapassagens proibidas. Por sinal, é incrível como tombam os nossos caminhões em rodovias e sempre pela explicação fácil de que os freios falharam, justificativa que, se aceita, nos levaria a concluir que os fabricantes de caminhões, apesar de há tanto tempo no ramo, ainda não aprenderam a fabricá-los bem.
          Outra explicação plausível para as ausências na Boca é a saúde. Aliás, em dois anos sofremos duas perdas bastante sentidas: Hugo Barreto e Francisco Macedo, frequentadores quase infalíveis dos encontros dos sábados. Infelizmente, foram chamados para onde suponho que estejam muito melhor do que neste mundo nem sempre ameno e pouco sensato.
          Há também as viagens, e alguns vivem de malas prontas para a próxima. Ora é turismo para o exterior ou a praias do norte e nordeste do Brasil, ora são pescarias em remotos rios. Motivos sobram. Enfim, seja por isso ou aquilo, o grupo tem-se ressentido dos afastamentos e transmite a sensação de caminhar para a extinção, o que não se espera. Mas é certo que sua vitalidade acusa o peso do tempo, dado que, convenhamos, é natural, embora não faça o processo ser menos doloroso. Cada ausência retira um pouco do tempero e ânimo das conversas e faz o café menos saboroso, e assim os encontros se descolorem como fotografias que empalidecem sob o envelhecimento.
          Aguardemos a primavera ou o verão. Sob sábados cálidos e azuis, pode ser que os antes habituais frequentadores retornem e revelem a boa disposição de sempre. E descubram que a filial das Casas Pernambucanas, que nos incomodava com a caixa de som colocada à porta de entrada transmitindo barulhentamente músicas de gosto duvidoso, para dizer o menos, pois descubram que fechou, talvez forçada pela catástrofe econômica brasileira, e que aquelas portas cerradas transmitem algo de melancólico, algo da tristeza que advém das despedidas.


Julho de 2016.  

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