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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

EXPO FOTOGRÁFICA - UM OLHAR NO VELHO CONTINENTE



Caros amigos,
Segue anexo convite para a exposição fotográfica de Guilherme, meu filho.
Aos que puderem comparecer, desde já agradeço.

Abraços,

Joaquim

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O Aguiar

O Aguiar
Cardosofilho

Era fascinante ouvi-lo contar suas histórias e aventuras, e se ficava a pensar que aquilo sim fora vida, não as nossas, comuns, acomodadas em rotinas descoloridas. A dele, bem diferente, cheia de emoções controlando o manche de um avião. Naquele tempo, já não voava. Estava um pouco velho e cansado, dizia, mas deixava transparecer que havia algo mais, algum mistério. Aliás, era um homem de enigmas, que gostava de narrar suas peripécias de aviador, mas evitava falar de si mesmo, de sua vida mais íntima, de amores passados, se tinha filhos, sobre família etc. Desconversava, mudava de assunto com uma risada seguida de alguma tirada de bom humor.
Encontrávamo-lo sempre no bar do Pernambuco. Ali era seu reduto para uma cerveja e boa conversa que se enfiava pela noite. Só bebia cerveja. No passado, experimentara as mais extravagantes bebidas em suas andanças por terras longínquas, mas agora ficava só na cerveja, que bebia devagar, com um prazer renovado a cada gole. Se havia alguém novo na roda de conversa, se entusiasmava e se deliciava em observar o brilho nos olhos do ouvinte recém-chegado no seleto grupo.
Havia muitas histórias. Contava, por exemplo, sobre o tempo em que voou para garimpeiros, recebendo o pagamento em ouro. Pousava em campos precários, de terra, em meio ao calor e poeira infernais, com alto risco, mas ganhava muito bem para fazê-lo. Seria impossível avaliar o quanto ganhara nesse tempo perigoso, de trato com gente boa e com bandidos, mas fora bastante, fora muito. Porém, como o dinheiro entrava fácil, saía do mesmo modo, em vida de muitos prazeres com mulheres, bebidas e joias. Gastou tudo, sorria, mas que diversão! Até que cansou, vendeu o aviãozinho já desgastado pelos muitos voos e buracos em que pousou. Dizia que fora sorte desfazer-se dele. Pouco tempo passou e soube que o avião caíra na selva e nunca foi encontrado. Não foi seu destino terminar daquele jeito, mas, se fosse, dizia, não teria do que se lamentar. Vida de aventureiro era assim, sujeita a todos os riscos, por isso emocionante. Vivia-se dia a dia, cada um podendo ser o último, e era preciso desfrutar com intensidade todos os momentos.
Chamávamo-lo de Aguiar. Era sobrenome. O nome era Júlio de Freitas Aguiar, mas ele preferia só o Aguiar, e explicava que sua vida fora guiar avião, ou seja, passara a vida “a guiar”, e se divertia com o trocadilho. Que vida, caro Aguiar!, e seu nome era para nós sinônimo de muito do que queríamos ter ou ter tido. Vida feita de viagens, lugares exóticos, perigos, emoções, mulheres a perder a conta, e a impressão que tínhamos era de que num dia qualquer ele partiria, atraído pelo desejo de viver com intensidade, coisa que a cidade pequena não podia lhe oferecer. A morte o fascinava, não pelo desejo de morrer, mas pelo desafio que ela lançava. Lembrava, por exemplo, o voo num bimotor sobre a selva amazônica, e um dos motores falhou. Parou de vez. Aguiar o embandeirou. Lá embaixo, o verde da selva impenetrável. Cair ali era sumir para sempre. Voava com ele três passageiros, que de pronto se apavoraram. Viam a morte se aproximar. Já viajava com eles, como quarto passageiro. O avião, pesado, com vento de proa, voava com dificuldade e o combustível era pouco. Um deles rezava, os outros dois se calaram, e Aguiar fechado, concentrado, de olho nos instrumentos de voo e navegação, pilotando com a perícia de tantos anos e contando com a sorte de o outro motor aguentar. Com muita dificuldade chegaram ao destino, um pista de terra aberta numa brecha desmatada, e os passageiros o abraçaram, comovidos. Ele os salvara.
Aguiar e seus voos e viagens! Ah, que encantamento era ouvi-lo, e a gente desenhava na cabeça os cenários e personagens que ele descrevia com muitos detalhes e cores. Viajámos com ele na imaginação, e então nosso mundo pequeno parecia um buraco, um nadinha de um mundo imenso. Lá fora, distante, moravam a aventura e emoção, e nós, ouvintes das histórias do Aguiar, seguíamos com ele em fantasias maravilhosas.
Um dia, ele, de fato, foi embora. Despediu-se dos amigos e disse que precisava reencontrar a antiga vida. Queria voar outra vez. Foi, para nós, um momento de não esquecer, de triste. Sem Aguiar contando e recontando suas histórias no bar do Pernambuco, cada vez com detalhes esquecidos na anterior, o que nos sobrava além da conversa miúda do dia a dia de uma pequena cidade? Por muito tempo ainda retiramos da lembrança as histórias que dele ouvíramos, e elas nos embalavam os sonhos e as passávamos para os que não tinham tido a ventura de conhecê-lo. Mais triste ainda foi quando descobrimos que Aguiar não fora tudo aquilo que contava. Nem sei se foi sequer um pouco. Ele criou um mundo imaginário, maravilhoso, e tão bem contado que, mesmo que de mentira, foi delicioso para nós. Por que o fazia, quem saberia dizer? Talvez porque a vida seja para alguns tão sem graça que é preciso inventá-la.

Setembro de 2017.


Carta aos leitores

Carta aos leitores


Caros amigos e amigas,


Depois de tantos anos de envio semanal de crônicas e contos aos amigos, comunico-lhes o encerramento de meu ciclo literário. E o finalizo com a crônica “O Aguiar”, anexa.
O motivo é simples. A labuta de escritor amador só se justifica se sua produção literária for lida e apreciada. Aos que se aventuram a editar livros, na forma de “edição do autor”, ou seja, cabendo a ele, autor, arcar com todos os custos de publicação, distribuição e venda, o terreno é áspero demais. Sem contar com retaguarda comercial que edite a obra e a promova junto ao público consumidor mediante publicidade, distribuição às livrarias e obtenção de resenhas favoráveis dos chamados críticos especializados, o autor ou contrata tudo isso, se tiver bolso para tanto, ou conta apenas com os amigos que apreciem seus escritos.
Em outras palavras, o escritor amador vive de amor à literatura, sem ilusões quanto a lucros financeiros. Pode acontecer de, num golpe de sorte, vir a ganhar dinheiro com o ofício, mas é raro. Precisa que, além da qualidade intrínseca da obra, aconteça a conjunção favorável de inúmeras variáveis e casualidades que não cabem ser tratadas aqui. Na maioria dos casos, portanto, o autor busca apenas reconhecimento literário.
Ao lançar meu segundo livro – “Aquário de Estrelas” –, em edição do autor, contrariei algumas opiniões para que fizesse o lançamento em evento apropriado, numa livraria, por exemplo. Optei pela venda direta através da Arte Editora, via internet (vide banner anexo da Arte Editora, a qual segue com o livro à disposição para venda). Considerei que seria muito mais cômodo adquiri-lo sem precisar sair de casa. Entrou também em minha escolha certo constrangimento com a exposição pessoal do autor que tais lançamentos promovem. Bobagem, pode ser, mas é acanhamento que me vem de muito longe e os anos não o reduziram. Quem sabe para meu prejuízo.
Assim pensado, assim feito. Pois bem, a acolhida ao livro, e tenho a relação das vendas realizadas até esta data, 05.10.2017, é indicador seguro a liquidar ilusões ou pretensões literárias. Uma coisa levou a outra e concluí que minhas crônicas semanais perderam o sentido sabe-se lá há quanto tempo. Afinal, concorrem com WhatsApp, Facebook e outros aplicativos via internet. Coisas da modernidade, e elas, crônicas, podem ter se convertido em mais uma mensagem a entulhar caixas de entrada de e-mails, na inútil pretensão de disputar o escasso tempo do leitor, largamente consumido em cima das formas de comunicação virtual em tablets, smartphones etc.
Voltando aos livros, a realidade é que o brasileiro é pouco dado a lê-los e, quando o faz, guia-se muito mais pela publicidade que cerca tal e qual obra. É muito mais confortável comprar um dos “mais vendidos” do que arriscar o dinheiro com autores de pouca projeção. É compreensível que aconteça desse modo e não se pode condenar o procedimento. Lamentar, sim.
Ainda sobre o livro “Aquário de Estrelas”, antes de lançá-lo cheguei a cogitar oferecê-lo gratuitamente aos amigos leitores, mas meu prezado amigo general Hamilton Bonat, intelectual experimentado nas letras, disse-me certa ocasião que “livro dado pelo autor não é lido”. A afirmação, amarga, pode ser até discutível e não aplicável a todos os casos, mas faz sentido na maioria das vezes.
Enfim, amigos, para encurtar a conversa, chego ao fim da linha. Aos que me acompanharam nesse tempo já alongado de crônicas e contos semanais e aos que adquiriram meus livros, meu agradecimento.


Cardosofilho


Outubro de 2017.


   

Os roedores do Brasil

Os roedores do Brasil
Cardosofilho
Não resisto e embarco no assunto.
O general Hamilton Martins Mourão fez recentemente uma declaração no recinto fechado de uma loja maçônica. Gravada, foi para a internet e causou um rebuliço dos diabos. A esquerda se ouriçou e pretensos democratas viram nas palavras do militar uma grave ameaça à democracia brasileira, essa esculhambação trágica que nossos políticos protagonizam.
Mas o que ele teria dito que tanta agitação causou? Simples. Trocando em miúdos, declarou que, se a sociedade civil brasileira, por meio dos três poderes – executivo, legislativo e judiciário – não punir severamente os corruptos que roubam a pátria e não realizar as reformas de que o estado precisa com urgência para que nossa democracia funcione decentemente, chegará o momento em que a paciência popular transbordará, atropelará os poderes constituídos e obrigará a intervenção das Forças Armadas para a restauração da ordem e moralidade. Como se deu em 1964, e quem viu sabe
Onde o exagero? Afinal, é o que se ouve nas esquinas, nos bares, nos lares, em toda parte. Em resumo, o general Mourão traduziu o sentimento de milhões de brasileiros, cansados e enojados com o cenário político do País. Mas o drama não se encerra aí. O brasileiro olha para o poder judiciário e treme de indignação diante do comportamento de alguns magistrados do STF (Supremo Tribunal Federal), dentre os quais ganha no momento destaque especial o ministro Gilmar Mendes, um boquirroto que morre de vaidade e não pode ver câmera e microfone à frente sem logo assumir ares de prima-dona. Se detém apreciável conhecimento jurídico, é também verdade que o utiliza segundo conveniências inconvenientes e suspeitas.
Há, meus amigos, um cheiro de fumo no ar, provocado pelos políticos corruptos que não querem salvar o Brasil. Querem mesmo é livrar a pele das garras da Justiça – notadamente da Operação Lava-Jato – e manter seus privilégios imorais. Prometem mudanças, desde que tudo permaneça como antes, e o povo, desiludido, sabe que desse Congresso muito dificilmente sairá algo que preste. O sistema apodreceu, eis o caso, e essa podridão alimentas as velhas e gordas ratazanas, para as quais os interesses do País morrem na varanda de suas suntuosas moradias e no limite de seus interesses e ambições espúrios.
A salvação, por ora, está nas mãos do Poder Judiciário, que também precisa rever seus privilégios escandalosos e injustificáveis. A paciência popular caminha para o esgotamento. Se ele, Judiciário, falhar em responder ao clamor da sociedade com a celeridade e rigor indispensáveis, preparemo-nos para o tranco, que não se deseja, mas que poderá ser o amargo remédio para um Brasil seriamente doente. Como advertia George Santayana (1863-1952), “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.

Setembro de 2017.

Alfredo

Alfredo
Cardosofilho

Na crônica “Ai, Brasil!...”, da semana passada, mencionei a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do bairro Tatuquara, mas no texto apareceu União de Pronto Atendimento. O erro foi prontamente anotado por atento leitor e quase me fez cair de costas. Como “união”? Que besteira era aquela? Pois lá estava. O equívoco só pode ser atribuído ao corretor ortográfico do Word, útil na maioria dos casos, mas capaz de cometer erros desagradáveis de vez em quando. O ocorrido me fez lembrar do linotipista Alfredo, já mencionado em outras oportunidades. Para os que não se recordam ou não leram sobre ele, eis o caso: Alfredo era linotipista de uma gráfica curitibana em que se imprimia, no modo antigo, o periódico “Tribuna Platinense”, fundado em 1965 pelo meu saudoso amigo Noel Cândido de Moraes. Antigo na profissão, hoje extinta como tantas outras pelo computador, Alfredo considerava-se expert em português, muito mais pelos anos de prática no ofício do que pelo conhecimento formal de ortografia e gramática. De modo que, se no texto que linotipava encontrava algo errado em seu entendimento, não tinha dúvida – corrigia! Sem perguntar a ninguém. E por que haveria de indagar, se lhe havia certeza de seu conhecimento?
Era de amargar. Jornal impresso, ia-se ver e lá estava a correção do implacável Alfredo. Um bom exemplo foi quando escrevi num texto esportivo (naquele tempo eu enganava como cronista esportivo) a palavra “o moral”, no sentido de disposição de ânimo, e Alfredo substituiu por “a moral”. Em sua gramática, era substantivo feminino e estávamos conversados. Pois na modernidade de hoje, o corretor automático de textos do Word é o Alfredo na versão informática.
Na ocasião, a irritação que ele provocava era grande. Vinha o desejo de esganá-lo, mas o estrago estava feito, era empregado graduado na casa e se deixava de lado. Hoje, lembro-me dele com saudade. Não dele, propriamente, mas do tempo do qual fez parte, como os figurantes em pontas de filmes. Foi, no entanto, época difícil, e nem o romantismo da memória consegue alterar a realidade daqueles dias. A vida de estudante vindo do interior para a capital, com trabalho de dia e estudo à noite, salário pequeno que mal dava para as despesas essenciais do mês, morando em pensão ou república estudantil, estava distante do que se poderia considerar felicidade. Muitas coisas prazerosas da vida passavam ao largo, inalcançáveis para os nossos bolsos minguados. Em compensação, aprendia-se a valorizar uma fatia de pizza com vitamina na Lanchonete Acrópolis, uma alcatra com maionese no Bar O.K., ou um cachorro-quente com linguiça, no fim de noite, no carrinho do Gaúcho. Pequenos prazeres que nos deliciavam o estômago sempre receptivo. E um almoço de domingo em casa de parente era a oportunidade de compensar a fome da semana que terminava e amenizar a da que começava, e nos atirávamos ao arroz com feijão, à macarronada, ao frango, aos bifes com invejável disposição e alegria.
Tínhamos, então, a mocidade, sem incômodos de saúde e a cabeça repleta de planos e sonhos. Havia muito caminho pela frente e o fim da estrada se mostrava tão remoto que parecia nem existir, e a perspectiva do futuro sem fim, à espera das realizações sonhadas, fazia suportáveis os apertos e dificuldades do presente. Haveria tempo para tudo.
Muita água rolou e conhecemos a verdade que os moços descobrem algum dia. Que não há tempo para todos os sonhos e nem todos são realizáveis. Arrastamos, agora, nossas histórias e as vamos repetindo a ouvintes cada vez menos atentos. As dores nos chegam. Hoje é o joelho, amanhã, isso ou aquilo. Vem a tosse persistente, o pulmão afetado reclama de pequenos esforços, a impaciência desperta com os excessos da modernidade, a audição nos trai. Chega a saudade do telefone antigo, do rádio no apogeu, das salas de visitas, dos jornais impressos que vão desaparecendo, do tempo em que as longas distâncias nos faziam cultivar amizades, afetos e amores em caprichadas cartas. É, caro Alfredo, seu atrevimento em corrigir textos, tão irritante lá atrás, me chega agora com um sabor doce e precioso. É lembrança da mocidade que a gente contempla de longe, com a visão algo desfocada pela distância e emoção e com a ternura que despertam as coisas que se foram.

Setembro de 2017.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O prisioneiro

O prisioneiro
Cardosofilho

Dois soldados o trouxeram à sala de interrogatório. Um moço alto, magro, vestido numa farda suja, insígnia de segundo-tenente, com o abatimento expresso na face e no corpo. Sentaram-no numa cadeira. Um capitão loiro, estatura mediana, olhos azuis, aproximou com o semblante cerrado. “Nome e unidade militar”, pediu secamente. O prisioneiro declinou nome e número, nada mais. Nenhuma informação ao inimigo, era o dever.
Iniciou-se interrogatório. O capitão queria informações sobre unidade militar, comando, localização, movimentos previstos, armas etc. O prisioneiro respondeu com seu nome e número. O capitão aproximou-se: “Durão, hein? Todos são assim. No começo. Depois falam. Sabemos como fazer isso. Mas podemos ser amigos, se cooperar. Posso lhe facilitar a vida de prisioneiro de guerra. Mas também torná-la muito difícil, compreende? Depende de você. Garanto-lhe que tentar resistir será a pior escolha. No começo, há o desejo de sentir-se um bravo, valente, um patriota candidato a herói. Mas só no princípio. Nós cuidaremos de que mude de opinião. Antes de continuarmos, quero que reflita sobre a realidade da guerra e sobre o que você representa nesse cenário imenso. Voltaremos a falar amanhã. E tenha em mente que você pode facilitar o trabalho para nós dois. Especialmente para você”. Virou-se para a escolta e ordenou que o levassem. O prisioneiro voltou para a cela fria. Corria setembro, o tempo mais o deprimia, com muita chuva e temperatura baixa, prenunciando o inverno. Os dias seriam longos e difíceis, ele sabia, só não sabia quanto. Precisaria de muita força interior para suportá-los e quis acreditar ser capaz de fazê-lo.
No outro dia, retornou ao interrogatório. Sentaram-no na mesma cadeira. O capitão parecia de bom ânimo, apesar do dia frio e cinzento. A sala estava agradavelmente aquecida e o capitão tomava um chá fumegante. Pousou a xícara na mesa e aproximou-se: “E então, tenente, refletiu sobre o que é a guerra?”. O tenente respondeu que sim. “Pois, então, me diga qual a sua unidade?”. O interrogado repetiu seu nome e número. O capitão sorriu, como se esperasse aquela resposta. “Vamos lá, tenente. Vejo que pensou mal e está ainda iludido. Vou tentar lhe esclarecer. Entenda que ninguém mais se importa com você. É apenas um número, uma das muitas baixas de seu exército. Faz parte, agora, apenas das estatísticas. Quem estará pensando em você? O cabo? O sargento de seu pelotão? O capitão da companhia? Não, não. Talvez já tenham morrido ou estejam aprisionados. Você é carta fora do baralho. Está só, como nunca esteve. Não é mais soldado, é apenas um prisioneiro, compreende? A aventura acabou. Deixe-me, agora, dizer-lhe o que é a guerra. É um jogo enorme, sujo e complexo. Cada soldado é simplesmente uma minúscula peça posta num imenso tabuleiro. Nada mais que isso. Se morre, vira um número. Um dia, alguém contabilizará que na campanha tal o exército X perdeu tantos milhares de soldados. Nenhum nome, porque não importa. Mortos rostos, sem história ou glória. Seu nome só aparecerá quando enviarem uma carta à sua família comunicando que desapareceu ou morreu. Ou numa cruz perdida em algum campo. Repito, um jogo sujo, sangrento, jogado por políticos instalados comodamente a centenas e centenas de quilômetros de distância do fogo e do inferno. Eles decidem quando e como jogar, e os soldados apenas cumprem as ordens em missões muitas vezes suicidas. Quem se importa? É o jogo. Perco tantas centenas de homens, mas ganho uma colina, ou atravesso um rio, ou finco uma cabeça-de-ponte em terreno inimigo. Interessa o objetivo, a estratégia, a vitória. O resto não conta. A verdade, tenente, é que, como soldados, somos nada. Matamos ou morremos anonimamente. Acredita que tem alguma importância nessa loucura?”. Voltou-se para a xícara de chá, tomou um gole, acendeu um cigarro, deu longa tragada, lançou a fumaça para fora, e o prisioneiro ansiou por fumar também. Como lhe fazia falta o tabaco!
Pôs o cigarro no cinzeiro, olhou fixamente para o prisioneiro. “Assim são as guerras, tenente. Desde o começo da História”. O prisioneiro permaneceu em silêncio. O discurso o incomodava. Já pensara sobre a realidade da guerra e se perguntara que sentido fazia todo aquele horror e mortandade, o desfile de inválidos e o sofrimento nas trincheiras. E sentia saudade atroz das campinas de sua infância, dos dias felizes e ensolarados repletos de sonhos do jovem que já morrera dentro de si, do mundo que deixara para trás e sabia que, mesmo que sobrevivesse à guerra, não mais o reencontraria. O capitão retomou: “É esta a crua e dura realidade. Então, sua resistência não servirá para nada, exceto para maior sofrimento seu. Você, repito, não conta mais, se é que já contou um dia. É apenas um peão fora do tabuleiro. Somos, todos os soldados, carne a ser moída na máquina infernal dos grandes conflitos humanos. O jogo prosseguirá sempre, depois deste outros virão, e assim será até o fim do mundo, se acontecer. Mas, agora, você já não faz parte do jogo. Como se tivesse morrido. Tem, no entanto, informações que me interessam. Pode me contá-las e eu retribuirei a colaboração. Receberá bom tratamento”. O cigarro se extinguira no cinzeiro. Acendeu outro, e o aroma atingiu o prisioneiro e o fez mais sedento ainda por fumar: Você falará, é certo. Todos terminam falando. De um modo ou outro. Os inteligentes escolhem logo. Os que se consideram valentes resistem no começo, mas acabam por revelar o que sabem. Antes, porém, sujam as calças. Acredite, soldado, ninguém, e repito, ninguém suporta nossos interrogatórios”.
Na solidão da cela, o tenente deitou-se no catre em profunda prostração. Miseravelmente só, entregue ao terrível dilema que lhe fora imposto. Debatia-se entre o dever militar de manter-se calado e a realidade de prisioneiro. Poderia suportar quanto? Suplício psicológico ou tortura física? Até onde o ser humano poderia aguentar? E não aguentar significaria o quê? Covardia? Traição? Ele sabia dos seus limites. A dor física, a partir de certo ponto, lhe seria insuportável. Mas não se considerava covarde. Ao contrário, poderia combater com bravura, matar o inimigo ou correr o risco de morrer ou ser ferido, mas a morte ou ferimento em combate aconteceria num segundo, sem tempo de sentir ou pensar. Um tiro surpreendente, vindo de um fuzil qualquer ou de uma rajada de metralha, e pronto! Mas agora...
No terceiro dia de interrogatório o capitão lhe ofereceu um cigarro. O prisioneiro o apanhou com avidez, desesperado pelo desejo de fumar. Mas o capitão não o acendeu. Deixou o cigarro intato entre os dedos trêmulos do prisioneiro. Serviram o chá, e o capitão apanhou a xícara e mordeu um biscoito. O prisioneiro ansiou por um pedaço. A fome o martirizava. Mas, ao menos, o cigarro... O capitão, no entanto, media os gestos em calculada crueldade. “Vamos recomeçar, soldado”, e deixou que o silêncio tomasse conta do ambiente, só afetado pelo bater dos saltos de suas botas longas no assoalho de madeira, ao caminhar pela sala com as duas mãos juntadas atrás do corpo. Por fim:  “Hoje é sua última chance. A guerra acabou para você. Num belo dia, depois que tudo terminar, poderá voltar para casa, caso colabore conosco, e ninguém lhe perguntará coisa alguma e não precisará dizer nada. Ninguém fala, ninguém confessa que cedeu e ninguém tem o direito de lhe exigir isso. Seu sofrimento é só seu e único e será absolutamente inútil e, acredite, insuportável. Lembre-se: até os que se dizem corajosos cedem, depois de se borrarem de modo abjeto e aviltante. Prepare-se, então. Amanhã você falará ou o entregarei aos nossos especialistas. Verdadeiros demônios na arte de interrogar. Nenhum ser vivo resiste, tenha certeza. Não pague para ver. Acendeu-lhe o cigarro e saiu da sala.
Naquela noite longa e insone, o prisioneiro debateu-se em intensa aflição. Desejou pôr fim à vida, mas na cela nada havia na que lhe permitisse o ato extremo. Morrer seria a solução. Morreria como soldado, em resistência ao inimigo e poria fim ao sofrimento moral que o sufocava. Sabia que não suportaria a dor física. Arrancar-lhe-iam os dentes com um alicate? Ou as unhas? Ou fincariam agulhas sob estas? Ou haveria algo ainda pior, alguma tortura que só o demônio seria capaz de engendrar? Suava frio e o pavor o desesperava. Quando percebeu a primeira claridade do novo dia, chorou espremido, baixinho, como um menino perdido, em desalento e solidão sem remédio. Chamou por sua mãe e pediu por um milagre que de algum modo o retirasse do pesadelo. Quando dois soldados vieram buscá-lo, caminhou com lágrimas ainda descendo pelo rosto magro.

Agosto de 2017.
  

 

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Noel Rosa versus Wilson Batista

Noel Rosa versus Wilson Batista
Cardosofilho

Nos anos 1930, houve uma polêmica musical protagonizada por Noel Rosa, na época já consagrando compositor de sambas, e o iniciante Wilson Batista, que viria a ser reconhecido como tal na década seguinte. Arrisco dizer que poucos conhecem essa história e haverá entre os mais moços quem até desconheça quem foram eles. É lamentável que seja assim. A memória popular esquece com facilidade, ajudada nesse olvidamento pelo desaparecimento das emissoras de rádio que transmitiam boa música. Também as de televisão prestam hoje esse desserviço. Mostram quase só lixo. Um exemplo: o programa dominical do Faustão. Exceções nesse panorama desolador são as poucas emissoras de rádio e TV de caráter educativo, infelizmente de pouca audiência.
O que foi essa polêmica musical? Tomei conhecimento da história na primeira metade dos anos 1950. Creio que por volta de 1955 (os historiadores do ramo afirmam que o disco foi lançado em 1956, mas suponho haver engano). O LP (capa estampada acima) de dez polegadas, o ouvi a ponto de decorar todos os sambas nele gravados. Havia em nossa casa, na rua Chile, uma sala de música, conjugada à de visitas. Foi a única sala doméstica reservada para esse fim que conheci ou de que ouvi falar. Talvez fosse moda nos anos 1950, não sei. Ia para lá, punha os discos na radiola e me deliciava com as canções de Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Aracy de Almeida, Ângela Maria, Nora Ney etc. Ou Frank Sinatra, Perry Como, Bing Crosby, Beniamino Gigli, Tito Schipa e outros. Era nessa sala que minha irmã Dora gostava de dançar ao som de “A Dança dos Sabres” ou de músicas de filmes americanos, e rodopiava em coreografias inspiradas nas fitas a que assistia nos cinemas. A cena rememorada agora, sob a luzes do que o futuro lhe reservaria, permanece envolta em beleza, mas ganha tons dramáticos e cruéis. Mas sobre essas coisas já escrevi em outro momento.
A polêmica começou em 1933, quando Wilson Batista compôs “Lenço no Pescoço” (Meu chapéu de lado/ Tamanco arrastando/ Lenço no pescoço/ Navalha no bolso...), em que louvava ser malandro e vadio. A resposta de Noel teve, segundo contam, motivos amorosos. É que Wilson Batista teria roubado uma namorada de Noel, uma dama da Lapa boêmia, e o samba “Rapaz Folgado” foi a vingança (Deixa de arrastar o teu tamanco/ Pois tamanco nunca foi sandália/ Tira do pescoço o lenço branco/ Compra sapato e gravata/ Joga fora essa navalha/ Que te atrapalha...).
Wilson Batista reagiu com “Mocinho da Vila”, em 1934 (Você, que é mocinho da Vila/ Fala muito em violão/ Barracão e outros fricotes mais/ Se não quiser perder o nome/ Cuide do seu microfone/ E deixe quem é malandro em paz...). O microfone apareceu no samba em alusão ao fato de que, na época, Noel Rosa já frequentava as rádios apresentando suas composições musicais. Consta que Noel ignorou a resposta e fez outros sambas. Um deles, em parceria com Vadico, não tinha relação com a polêmica e desde logo tornou-se um clássico: “Feitiço da Vila” (Quem nasce lá na Vila/ Nem sequer vacila/ Ao abraçar o samba/ Que faz dançar os galhos/ Do arvoredo/ E faz a Lua nascer mais cedo...). O samba era em homenagem à Vila Isabel, bairro carioca do poeta. Wilson Batista, ainda sem expressão na música popular brasileira, aproveitou para provocar Noel e, assim, promover-se. Lascou-lhe “Conversa Fiada”, composição de 1935 (É conversa fiada/ Dizerem que o samba/ Na Vila tem feitiço...). Noel rebateu com “Palpite Infeliz”, também de 1935 (Quem é você que não sabe o que diz/ Meu Deus do céu, que palpite infeliz...).
Parecia terminada a polêmica, mas Wilson Batista apelou com o samba “Frankenstein da Vila”, em que aludia à feiura de Noel Rosa por um defeito no queixo que lhe ficara do nascimento com o auxílio de fórceps (Boa impressão nunca se tem/ Quando se encontra um certo alguém/ Que até parece o "Frankenstein"...). Noel não respondeu. Segundo alguns, ele até achou graça, mas houve quem afirmasse que não foi bem assim. Ter-lhe-ia doído fundo, a ponto de chorar na mesa de um café, na presença de um amigo.
Wilson Batista viria com mais um samba: “Terra de Cego”, de 1936 (Deixa essa mania de bamba/ Todos sabem qual é/ O teu diploma no samba/ És o abafa da Vila, eu bem sei/ Mas na terra de cego/ Quem tem um olho é rei...).
No disco, aparece ainda o belo samba “João Ninguém”, de Noel (João Ninguém/ Que não é velho nem moço/ Come bastante no almoço? Pra se esquecer do jantar...), mas que não fez parte da polêmica musical.
Terminaram amigos. Noel faleceria de tuberculose, em 04.05.1937, e Wilson Batista viveu até 07.07.1968, confessando-se admirador do poeta da Vila.
O LP virou relíquia de colecionadores. Ainda bem que se pode ouvi-lo na internet, por meio do YouTube. Vale a pena. Contém antológicos sambas. A mim, além do prazer musical, me transporta para a sala em que eu, menino de calças curtas, aprendia a apreciar a boa música popular brasileira.

Agosto de 2017.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Histórias de outra Curitiba

Histórias de outra Curitiba
Cardosofilho
Narro-lhes caso bastante antigo. Varou os anos, contado de uma geração a outra, como de comum acontece, até que o viúvo do Cristo Rei o trouxe a mim.  A casa em que tudo se passou já não existe, assim como desapareceu a Curitiba de então. Existiu, na avenida João Gualberto. Um daqueles majestosos casarões que o progresso devorou sem piedade para abrir espaços a edifícios. Acomodem-se, pois, amigos, e vamos a ele.
Um cidadão costumava passar a pé em frente dessa morada, imponente mansão antecedida de amplo e verdejante jardim. Apanhava o bonde próximo dali. Certo dia, na volta ao trabalho depois do almoço, e seria uma hora da tarde, divisou no jardim uma menina loira, de pele clara como leite, a brincar num balanço, e seus longos cabelos dourados agitavam-se ao vento e ela sorria feliz. Uma encantadora menina, considerou o homem, e a cena o encheu de ternura. Viu-a outras vezes a balançar-se e, numa oportunidade, não resistiu e acenou-lhe, e ela graciosamente respondeu. A partir de então, sempre que a encontrava brincando no jardim, a cumprimentava com o aceno de mão e ela o retribuía com um sorriso.
Passar em frente ao casarão converteu-se para ele em imposição sentimental. Sentia falta se não a via. A criança, tão bela, e se diria na época, mui grácil, por alguma razão inexprimível o comovia. Acontecia de dia ou outro não vê-la, e ele contemplava com uma ponta de tristeza o balanço vazio. Mas ela reaparecia no dia seguinte e a rotina de acenos se retomava e o fazia feliz. Veio a ideia de presenteá-la. Coisinha simples, um agradozinho, e considerou adequado uma caixa de bombons. No dia seguinte, com a caixa de doces embrulhada em papel cor-de-rosa e amarrada com fita, dirigiu-se à frente do casarão ansioso para entregar o presente e conversar um pouco com ela, e lhe perguntaria o nome e diria o seu, e assim deixariam de ser conhecidos apenas de vista e passariam a ser um pouco amigos. Mas não a encontrou. Lamentou-se algo frustrado, mas faria a entrega no outro dia. No dia seguinte, também não a viu no jardim. Aborrecido, caminhou para o ponto do bonde. Animou-se, contudo, pensando que amanhã, com certeza, ela estaria lá.
Ela não reapareceu nos dias seguintes. Talvez estivesse doente, e a possibilidade o entristeceu. Os dias seguiram-se sem novidade. O que teria havido?, ele se perguntava, com a preocupação que fazia pouco sentido, pois ela continuava a ser para ele uma menina quase estranha, cujo único vínculo a ligá-los era o de se verem de longe, ele na calçada e ela no balanço do jardim, e a troca de acenos. Nada além. Mas o sumiço o instigou e ele decidiu perguntar. Assim fez. Penetrou no largo jardim, avançou por um caminho de pedras escuras margeado por arbustos e flores, chegou à maciça porta de entrada, ainda guarnecida por uma aldrava de bronze, e apertou a campainha. Por trás da porta, o silêncio. Acionou de novo a campainha. Ouviu, por fim, ruídos vindos do interior da casa. Abriu a porta uma senhora já idosa, e ele presumiu que tivesse mais de setenta anos. Explicou rapidamente o que o levava a incomodar a senhora. Queria notícias da menina que costumava brincar no balanço do jardim e também lhe entregar pequeno presente. A senhora o fitou de modo estranho. Havia aturdimento em seus olhos. Não, não, enfatizou, não havia nenhuma menina ali. Certamente tratava-se de engano. O espanto agora era dele. Como não havia, se ele a encontrava quase diariamente brincando no jardim? A senhora repetiu a informação. Ele estava equivocado, não insistisse, por favor, e, assustada, fez menção de fechar a porta. Ele persistiu, e a descreveu para a senhora, era uma garota linda, de pele e cabelos muito claros, que lhe acenava sorrindo a divertir-se no balanço. Diante do insólito da situação, a senhora arriscou permitir que o estranho, quem sabe maluco, entrasse na casa. Pediu que a acompanhasse. Caminhou por uma espaçosa sala mobiliada com móveis pesados, escuros e antigos, de beleza algo decadente, e os sofás revelavam no desbotado do veludo a ação dos anos. Dirigiram-se para uma segunda sala, na qual havia uma lareira. Encimava a lareira uma base de mármore, sobre a qual repousavam vários porta-retratos ostentando fotografias amarelecidas. Ela parou, virou-se para ele e pediu-lhe que olhasse as imagens. Ele o fez, uma a uma. De repente, a menina! Sim, não havia dúvida, era ela! Um arrepio o percorreu. Com o dedo indicador, apontou para a fotografia envelhecida e disse à senhora: “É esta a menina”. A senhora empalideceu, os lábios lhe tremeram, sentiu uma espécie de vertigem e teve de apoiar uma das mãos na lareira. Era muito difícil continuar a conversa, que enveredara pelo absurdo. Passados alguns segundos de estupor, reuniu forças e respondeu: “Essa menina, meu senhor, era a Eugênia e faleceu há mais de trinta anos”. Não era possível acreditar, foi o pensamento que ocorreu a ele. Havia alguma coisa muito errada em tudo aquilo, talvez algo que a senhora queria ocultar. Morrido como? Que história era aquela? Estaria louco?, insistiu. Ela lhe repetiu, com a fala titubeante e os olhos se enchendo de lágrimas, que Eugênia morrera havia mais de trinta anos, de tifo. Que era o que podia dizer, e o mais lhe fugia à compreensão. E assombrada pelo caso e amedrontada pela presença daquele homem e sua história fantástica, pediu-lhe que, por favor, se fosse. Ele quis perguntar mais sobre Eugênia, empurrado por aterradora curiosidade, mas a senhora repetiu-lhe “Por favor”, com ênfase que eliminou qualquer possibilidade de a conversa prosseguir. Contemplou mais um pouco a linda menina da foto, confuso e emocionado, virou-se lentamente e caminhou para a  saída. Antes que a pesada porta se fechasse atrás de si, ouviu a senhora pedir-lhe que não retornasse. Assentiu com leve meneio da cabeça e caminhou pelas pedras escuras em direção ao portão, vergado pelo enigma que lhe desafiaria o entendimento pelo resto de seus dias.

Agosto de 2017.

 

sábado, 5 de agosto de 2017

Agosto

Agosto
Cardosofilho

Cuidado, amigos, muito cuidado. Agosto chegou e traz fama de ser um tanto aziago para o Brasil. Diz-se que é o mês do desgosto, ou de cachorro louco. A história do desgosto vem de longe. Contam que era em nesse mês, lá no século XVI, que as caravelas portuguesas partiam para as grandes navegações e o fato causava desgosto às esposas, noivas ou namorados dos marujos, pela incerteza se os amados retornariam.
A nos reforçar a crendice, no século passado dois acontecimentos políticos traumatizaram o País: o suicídio de Getúlio Vargas, em 24.08.1954, e a renúncia de Jânio Quadros à presidência da república, em 25.08.1961. As repercussões de ambos foram enormes e arrisco dizer que a renúncia de Jânio, mais do que o suicídio de Vargas, mudou a rota de nossa história. Não tivesse havido e o Brasil seria hoje diferente. Se melhor ou pior, quem há de dizer? Não teria ocorrido, por exemplo, a Revolução de 1964, que hoje virou moda chamar de golpe pela esquerda assanhada. Fico com revolução mesmo. Do contrário, a de 1930 e a proclamação da República também precisariam ser chamadas assim, mas isso ninguém faz. Nem os professores e sociólogos marxistas.
A saída de Jânio é um mistério nada misterioso. Fala-se em mistério pelo gosto pelo oculto, sempre mais saboroso que a verdade. É prazeroso falar da renúncia exalando um ar esotérico, com voz cavernosa. Segundo a lenda, Jânio teria bebido uísque além da conta e, sob efeito do álcool, com as ideias boiando em vapores etílicos, escreveu a carta de renúncia sob a pressão de forças ocultas. Coisas das sombras, do inexplicado, e o país se pôs a imaginar e indagar: por quê, meu Deus?
Antes, convém dizer que ele talvez não desse certo de nenhum modo. Era exótico, histriônico, instável, imprevisível e chegado ao uísque (Lula não foi o primeiro presidente afeito ao álcool). Gerenciava a casa por meio de bilhetinhos aos ministros e até hoje sua mente desafia interpretações. Ainda no começo do mandato, resolveu condecorar Che Guevara, o revolucionário cubano implacável com os adversários (fuzilou pessoalmente ou mandou fuzilar muitos deles). Um gesto de independência de Jânio em relação aos Estados Unidos, que naquela altura já não engoliam a Cuba comunista. Cá entre nós, precisava cometer tamanha besteira? Pegou mal, muito mal, mais ainda junto às Forças Armadas.
Pois bem. E o que pretendia Jânio com a renúncia à presidência? Ele acreditava que as forças políticas que o apoiavam, também os militares, viriam em seu socorro e lhe dariam o que ele considerava necessário para governar o Brasil – poderes extraordinários para enfrentar as tais forças ocultas que o impediam de bem governar. Ou seja, enfrentar o Congresso Nacional. Queria governar por decretos. Falasse e estaria falado, sem precisar se submeter às chantagens de deputados e senadores. Seria o cenário para a ação da vassoura que utilizou como símbolo de campanha. A vassoura que varreria porta afora a corrupção que já então dominava o Brasil. O Congresso Nacional se revelava, como hoje, um balcão de negócios. A manobra de Jânio pifou melancolicamente. Aceitaram a renúncia, ele viajou com d. Eloá para a Europa e deixou para trás um salseiro dos diabos. O vice-presidente era João Goulart, antevisto por muitos como incapaz para o cargo, muito mais chegado às boates e vedetes cariocas. Mas era o vice constitucional e Leonel Brizola berrava lá do Rio Grande do Sul, por meio da radiofônica Cadeia da Legalidade, que não aceitaria outra solução que não a posse do vice. No fim, chegou-se a um remendo danado: o parlamentarismo, que nasceu já com data de óbito cravada. Jango assumiu, logo voltou o presidencialismo, o presidente desgovernou, Brizola pôs lenha na fogueira, os brasileiros foram para as ruas pedindo o fim da anarquia, os militares saíram dos quarteis e deu-se revolução de 1964.
Convenhamos que o resumo aqui mostrado é resumidíssimo e simplista, mas serve para refrescar a memória sobre dois agostos trágicos. E também para dizer que o Brasil sofre patológica atração pelo abismo.

Agosto de 2017.

   

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Se não tem tu...

Se não tem tu...
Cardoso Filho


Certa vez, Pelé declarou que o brasileiro não sabia votar e causou furiosa e hipócrita reação de inúmeros intelectuais. Ele estava certo, mas sobrou má vontade em entender o que quis dizer – que boa parte joga fora o voto. E é tão verdade que há quem pergunte se democracia não seria um luxo para os subdesenvolvidos, em que os eleitores votam sem discernir os bons dos maus. Votam no cabresto, a troco de algum favorzinho safado, de uma dentadura, um par de sapatos, de alguma promessa de recompensa, de um trocado na mão, e por aí vai. Então, quando se olha para o quadro político brasileiro, moralmente minado, doente, tomado de corrupção, não há motivo para espanto. Ele é a cara do nosso voto.
O ruim pode sempre piorar. É o ponto em que estamos. Olha-se o panorama e não se vê praticamente ninguém com estatura para governar o país com altivez, coragem e competência. Nossos quadros políticos estão comprometidos até o tutano com a ladroagem pura e simples. Poucos se salvam. Pior é que o Brasil precisar sanear-se no executivo, legislativo e judiciário. Serviço completo. Há muita sujeira e abusos a varrer para o lixo, a incinerar. Só que ninguém começa a tarefa, ninguém dá o exemplo. Ao contrário. O país se afunda em calamidade econômica, quatorze milhões de desempregados batem de porta em porta na busca de qualquer emprego, a miséria nos afronta, há milhões que passam fome e frio, ou padecem por falta de saúde pública, há os que morrem pelas armas do crime desembestado que toma as cidades, grandes ou pequenas, mas lá em cima, no comando do barco, a farra continua. Empreguismo no serviço público, salários absurdos e mordomias desbragadas, vantagens e mais vantagens a título de indenização de despesas como o vergonhoso auxílio-moradia pago indistintamente a todos os magistrados, e ninguém dos que se locupletam com a rapinagem sequer esboça, diante dessa ruína moral, um arzinho de nojo, um suspiro de pudor, um ruborzinho de constrangimento. Nada. A vergonha pediu o chapéu e foi embora faz tempo. A atividade febril é para brecar a Lava-Jato, fugir do acerto de contas com a Justiça e salvar todas as ratazanas. Eis o Brasil em frangalhos de hoje.
Dias atrás, a propósito da crônica “Diário de um pracinha”, um amigo leitor revelou-me que a “Canção do Expedicionário”, composição de Spartaco Rossi e letra do poeta Guilherme de Almeida, lhe provocava forte emoção. Respondi-lhe que também a mim. Por outro lado, entristecidos nos confessamos um ao outro que o Hino Nacional Brasileiro não surte mais o mesmo efeito. O fenômeno é compreensível. O Brasil encontra-se tão vilipendiado, ultrajado, que o brasileiro perdeu o orgulho pela pátria. E me recordo de que no fatídico jogo Alemanha 7 x 1 Brasil, na Copa de 2014, disputado no estádio Mineirão, muitos brasileiros não lamentaram a derrota. A humilhação fez parte do desamor.
Estamos assim. Encalhados, sem saber se o presidente Temer sai ou fica, e ninguém lamenta a desgraça do homem, pois afinal ele e seu partido (PMDB) foram sócios do governo petista durante treze abomináveis anos. Fazem parte do desastre e maracutaias. E se sair, virá Rodrigo Maia, outra lamentável figura, e virá eleição indireta, e sabe-se lá o que pode mais acontecer.
Daí ser possível entender o crescimento do contundente Jair Bolsonaro como nome para a presidência da república em 2018, para horror dos “politicamente corretos”, essa turba ruidosa que veio para estragar o mundo, e o ódio das esquerdas. É que a maioria dos brasileiros está pelas tampas com o que acontece por aqui. Não suporta mais a sem-vergonhice impune e o descalabro e vê em Bolsonaro o homem que encarna e verbaliza a indignação que lhe ferve nas veias e seu anseio por ordem, segurança e respeito que tanta falta fazem ao país. Quer um basta na canalhice que subjugou o estado brasileiro. Quer uma faxina geral, desde a diretoria até o porão, de um jeito ou outro. Quer as reformas que os políticos de agora jamais farão, porque a estes não interessa drenar o pântano em que chafurdam e se esbaldam.
Não faço aqui apologia de Bolsonaro. Apenas constato e entendo o fenômeno, que tenderá a crescer na proporção em que o Brasil seguir no descaminho. É um salvacionista? Truculento? Quem sabe? A verdade é que o desespero brasileiro, diante do deserto de nomes, mais se aproxima, para o bem ou para o mal, do velho adágio: “se não tem tu, vai tu mesmo”.

Julho de 2017.


GRATIDÃO OS HEROIS DA PANDEMIA