quinta-feira, 28 de julho de 2016

Cidade das memórias


Cardoso Filho

          O sonho vinha de longe. Haveria de voltar para sua terra natal, mesmo que na velhice. Lá é que fora um tempo feliz. Lembrava-se do calor, da claridade dourada, da intimidade que a cidade pequena gerava, em que a todo momento, nas calçadas, nas esquinas, nos bares, nas vendas, amigos e conhecidos se encontravam, trocavam notícias e riam com as pilhérias do dia a dia local. O mundo de fora contava pouco. A cidade tinha identidade própria, seus usos e costumes e suas gírias, e para acompanhar o que de importante ocorria lá fora bastava ler de vez em quando um jornal atrasado, folhear a revista semanal “O Cruzeiro” ou ouvir pelo rádio, à noite, o “Grande Jornal Falado Tupi”, irradiado pela Tupi do Rio de Janeiro, ou as edições diárias do “Repórter Esso”, da Rádio Nacional, anunciado por Heron Domingues como “testemunha ocular da História”.
          Pois a hora chegara. Maria Alice sabia do projeto desde o começo, não discordava e não lhe faria muita diferença. Também viera do interior, de pequena localidade de Minas Gerais, seria fácil adaptar-se, e deixar a cidade grande chegava a ser alívio. Nada como sossego na etapa derradeira, o custo de vida menor, poderiam conservar as economias juntadas anos a fio e garantir a tranquilidade. E começaram a planejar a grande mudança. Venderiam o apartamento, o momento até ajudava para negócio, e comprariam uma casa na cidade de Alfredo, com quintal, pois ele queria um cachorro, já tinha até nome escolhido para o bicho, um boxer que chamariam de Átila.
          Viajou sozinho para a terra natal. Sondaria o negócio da casa. Se não desse para comprar logo, alugaria uma. Sem exageros, sem luxos, seria só para os dois e o cão, bastavam até dois quartos, um para a visita de algum filho. Mas quintal seria indispensável, e haveria de ter mangueira, abacateiro, laranjeira, goiabeira e um limoeiro de limão rosa. Se não existissem, plantariam. Chegou de madrugada. O ônibus estacionou na estação rodoviária, construção modernosa, feia e malcuidada. Teria preferido o ponto antigo, sem o progresso que, podia ver, atrapalhara. Na falta de táxi, dirigiu-se a pé ao hotel indicado como melhor da cidade. Não passava de regular, mas não moraria no hotel e relevou o detalhe. Deitou-se para dormir. Bem descansado, iniciaria a visita e a sondagem de casa para comprar ou alugar. Logo adormeceu, e sonhou com lembranças da adolescência, e no sonho reviu a cidade que conhecia tão bem.
          Tomou banho sob um chuveiro elétrico precário, econômico na água, mas o tempo estava bom, sob o calor de setembro, e suportou o desconforto. Aprontou-se e saiu a andar pelas velhas calçadas, tão familiares. Sentiu a emoção do reencontro. Fazia muitos anos que não pisava naquelas pedras. E caminhou em busca dos cenários conhecidos e de velhos amigos. Baixou-lhe, então, sensação de estar em mundo alheio. Olhava para cá, olhava para lá e não via a sua cidade. Não topava com amigos. Gente desconhecida passava sem o notar. Mais um entre tantos. Nada de bons-dias corteses, de acenos de cabeça. Com custo, encontrou Salvador, um dos amigos de sua época, de sua geração. Envelhecido demais, tossindo muito, uma tosse feia e gorgolejante por causa do fumo. Talvez ele, Alfredo, apresentasse desgaste igual, imperceptível ao olhar diário no espelho, mas Salvador, revisto de repente, tanto tempo depois, era a velhice estampando, num só golpe, a inteireza do trabalho avassalador de todos aqueles anos. Perguntou por outros amigos. Maioria tinha partido, informou Salvador, o restante saía raramente de casa, entretido na televisão. Conversaram pouco mais, haveriam de se ver outra vez, e Alfredo seguiu em frente. E mais andava e mais sentia a solidão. À sua volta, a cidade trepidava sob o sol da manhã, cheia do barulho de carros e motocicletas, e ele buscava sem sucesso a cidade pequena que deixara.
          Ficou ali dois dias, mais que suficientes para descobrir que a terra que guardara no coração e na lembrança se fora. O rolo compressor do tempo passara por cima. Sobrara bem pouco. Tomou o ônibus de volta, chegou em casa, abatido, Maria Alice veio ao seu encontro ansiosa pelas notícias. “E então?”, quis saber, e Alfredo, sob a tristeza e amargura de sonhos desfeitos, respondeu-lhe que esquecesse dos planos. Terminariam os dias na cidade grande. Abraçou-a e resignou-se: “Sabe, Maria Alice, o passado não volta”.


Julho de 2016

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