quinta-feira, 31 de março de 2016

Ciro & Lurdes

Ciro & Lurdes
Cardoso Filho

           Descendentes de ucranianos, casados havia pouco, gente humilde, criados na lida dura de lavração da terra, um dia, cansados da vida difícil, de futuro pouco promissor, decidiram deixar o campo em Prudentópolis e tentar a sorte na capital. Haveriam de encontrar trabalho melhor na cidade grande, eram de enfrentar o pesado, qualquer coisa serviria para começar. Rasparam as economias, juntaram mais umas ajudazinhas dos familiares, recolheram o tico de móveis, os presentes simples recebidos no casamento, umas loucinhas, uns talheres baratos, uns bibelôs, o modesto enxoval de noiva, botaram tudo em cima de um pequeno caminhão de aluguel e partiram. Contavam, para início da nova vida, que uns parentes em Curitiba dariam alguma mão, pouca, era certo, porque também se tratava de gente pobre pelejando para sobreviver. O resto seria com Deus.
          De fato, um dos parentes indicou Lurdes para trabalhar de doméstica na casa de dona Elisa, distinta senhora com quem se adaptou fácil, porque Lurdes era trabalhadeira e boa de gênio. Ganhava pouco, mas o pouco permitia ajudar em casa. Ciro, por seu turno, acostumado a lidar com plantas e matos, arrumou umas ferramentas com uns cobres que a generosidade de dona Elisa lhe adiantou e foi trabalhar de jardineiro. Assim começaram a vida em Curitiba. Na rotina de todos os dias, Lurdes seguia bem cedo para o emprego e lá, com licença da patroa, preparava a marmita para o marido. Pouco mais tarde, Ciro aparecia, apanhava o almoço e partia para cuidar dos jardins. A vidinha seguia nesse ritmo, difícil, de muito trabalho, mas com jeito de melhorar, pois Ciro, caprichoso no que fazia, ia aumentando a clientela e logo pôde comprar uma bicicleta usada para facilitar-lhe o transporte. E Lurdes amava Ciro e Ciro amava Lurdes, e sonhavam juntos com tempos melhores, e o querer e a esperança ajudavam muito no enfrentamento da aspereza daquele começo. Mas, certa manhã, o céu toldou-se para eles.
          Ciro chegou para apanhar a marmita. Perguntou se já estava pronta. Lurdes desculpou-se, meio aflita, não havia dado tempo, muito serviço, dona Elisa pedira umas coisas meio urgentes... Ciro a interrompeu. Não gostou nada. Chegou mais perto, rosto fechado, e disparou o aviso, que escutasse bem, Lurde (era como a chamava), sua marmita estava em primeiro lugar, nada de coisa antes para fazer; que precisava comer para trabalhar direito, além do mais ele era seu marido e ela tinha obrigação de cuidar bem dele e da sua marmita. Por fim, despachou a ordem, que fosse arrumar a marmita de uma vez.  Enquanto ela se apressava em aprontar a vianda, ele indagou por sua calça limpa. Ela se atrapalhou de uma vez, ah, Ciro, não dera tempo de passar. Era demais para a paciência dele. Repreendeu-a com mais rudeza, que escutasse bem, daquele jeito não ia dar, eram casados fazia pouco tempo e ela já falhava nas obrigações, ela que tomasse jeito. Lurdes desabou num choro sentido, amargo, em infelicidade total. Entregou a marmita e Ciro foi embora.
          Ela passou o dia a ruminar o acontecido, cheia de culpa. Ele havia falado que daquele jeito não daria. Talvez não desse mesmo, ele já estivesse desgostoso com a vida de casado, com as dificuldades, por pouca coisa havia estrilado feio, não era coisa para tanto, quem sabe a vida na cidade grande fosse demais para ela, criada no mato, na vidinha simples de Prudentópolis, melhor fosse voltar para lá, viver com sua gente, na sua terra. No cair da noite, Ciro chegou e a encontrou tomada pelos pensamentos sombrios. Ela avisou que precisam conversar.  Era sua vez. Tomou coragem. Tinha pensado bem e talvez ele tivesse razão, que não daria certo, daí que melhor era voltar para casa, ficar com os pais, vai ver é meu destino e você toca a vida como achar melhor. Ciro retrucou em cima. Ela não estava entendendo, eram casados no papel e na igreja, quem mandava nela, agora, era ele, seu marido, não era pai nem mãe, não tinha história de voltar coisa nenhuma, que sua casa agora era ali, com ele, e o caso estava encerrado.
          No outro dia, ainda chorosa, foi visitar a vizinha Bonifácia, negra já de certa idade, viúva, cabelos começando a embranquecer, opulenta de corpo, proprietária de três casinhas, duas rendendo aluguel. Lurdes contou-lhe a desdita, seu desejo de ir embora, falara com Ciro e ele lhe respondera que quem mandava nela agora era ele, seu marido, que esquecesse pai e mãe. Bonifácia, senhora experimentada nas idas e vindas da vida, indignou-se, pôs as mãos nas fartas cadeiras e disparou que aquilo tudo era uma besteirada do Ciro, quem ele pensava que era, homessa!, esse tempo de homem mandar em mulher acabara fazia tempo, não tinha mais disso, não!, que Lurdes precisava ter tutano, chega nele, olho no olho, e diz que ele não manda em você de jeito nenhum, isso foi nos antigamentes, agora é tudo igual.
          Lurdes voltou para o trabalho carregada de ânimo e coragem. Bonifácia sabia das coisas, tinha sabedoria. No fim da tarde, Ciro chegou. Sentou-se numa cadeira, na cozinha, perguntou se tinha café, Lurdes buscou, serviu, esperou o primeiro gole. E começou. Que Ciro ouvisse bem, não tinha mais essa de marido mandar em mulher, esse tempo passara, agora era tudo igual e ela faria o que bem entendesse. Se desejasse voltar para casa dos pais, iria, mas havia pensado e faria diferente: iria era se mandar para o mundo! 
          Ciro não caiu para trás porque estava sentado. A reação inesperada de Lurdes, cheia de coragem e direitos, o assustou, coração acelerou-se, apertou o peito. Ante o desastre iminente, pediu calma, que não ficasse nervosa, ela tinha razão, que história aquela de deixar marido?, ele gostava dela, não precisa sair nada, um cuida do outro e a gente vai ser feliz. Que esquecesse a bobagem e tudo se acertava.
          Diante da capitulação mansa e doce de Ciro, ela esqueceu, tocaram em frente em pé de igualdade e foram felizes, conforme o possível nas contas da pouco generosa existência.
          Por essas e outras se vê que o machismo vai morrendo. Há resistências, os durões esperneiam, mas o destino está selado e os machões terão de se conformar. É a marcha inapelável dos tempos.


Março de 2016..

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