Mostrando postagens com marcador Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt. Mostrar todas as postagens

sábado, 10 de setembro de 2016

Quando o erro médico é obedecer ao paciente

Paulo Bittencourt

https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif
https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif
https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif
https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif
Presidente (Anita Zippin), quero anunciar que coloquei à venda mais um livrinho na amazon.com.  Ainda está com algumas falhas, mas como já está tendo algum sucesso, achei melhor avisá-la. Na verdade foi escrito em 2009, aprovado pelo Conselho Regional de Medicina do Paraná, mas creio que agora é um momento mais maduro para publicação.
Obrigado

Quando o erro médico é obedecer ao paciente: um ensaio sobre uma difícil aliança
Incluindo o capítulo “ Suicídio e mortes violentas inesperadas” da 1ª edição do Fora da Casinha, este livreto de 60 páginas aborda fatos concretos como o caso Michael Jackson e inúmeros outros ocorridos em torno de 2005, que levaram médicos a tomar decisões que fizeram muito mal a seus pacientes. Embora forte, o texto é objetivo, documentado e não é polêmico. Analisa fatos do ponto de vista de um especialista. Tenho familiaridade com sistemas de saúde de muitos países em vários continentes, e foi desta perspectiva que pude entender como ocorreram tantos acidentes em países com sistemas de saúde como o nosso e o americano, onde o paciente tem o poder de escolher diretamente com quem se trata, inclusive no nível de especialidade.
Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt
.....
https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif
https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif
https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif
É um ebook da amazon. A gente mesmo faz, sem editora. Tomei esta opção por inúmeras razões, não só financeira como também de mercado e publicidade...
A renda é mínima, assim como o investimento. E todos sabemos que é um mercado crescente, fica para os filhos.
Se quiserem dar uma olhada é só entrar no site da Amazon e digitar o meu nome Paulo Bittencourt. Aparecem todos meus livros que estão lá.

Paulo Rogério

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Liberdade, tirania, insanidade e religião

Liberdade, tirania, insanidade e religião
Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt
No fim da década de 1990, passeando pelo sul da Escócia em um intervalo de congresso, uma eslovena tentou convencer a mim, croata, que a guerra da Iugoslávia era o início da 3ª Guerra Mundial, a ser travada entre islâmicos e ocidentais. Hoje, o Papa Francisco não só usa esta equação frequentemente em seu discurso, como toma atitudes muito claras nesta direção. Dialoga com seus pares judeus e ortodoxos, e faria o mesmo com um líder islâmico se houvesse um interlocutor definido. Tem a confiança e obtém resultados de negociações com agnósticos e ateus com facilidade espantosa, como as famílias Obama, Clinton e Castro.
Há poucos anos coloquei este assunto em um artigo breve (Gazeta do Povo, referência perdida!) e outro completo (A Liberdade e Tirania, passando por Mill, Berlin, Gray, Obama e Maomé. Iátrico (CRMPR) 31:15-17, 2013). Assim como meu livro Fora da Casinha, estas ideias previram e explicam em parte o caos atual do confronto com os islâmicos. Mas precisam uma revisão para acomodar fenômenos como Donald Trump, o Brexit e a invasão da Europa pelos imigrantes.
Alguns eventos podem provocar uma emoção descrita em inglês como “baffling”, do verbo “baffle”, originado do provençal ou francês antigo, da sensação de perplexidade que atingiu Hillary Clinton quando o embaixador americano foi morto em Benghazi em 2012. A mesma sensação criada pelo filme sobre o Profeta divulgado na Califórnia logo em seguida. Líderes islâmicos demoraram para resolver se orientavam seus pupilos a atacar ou protestar nas ruas.
Em um artigo publicado na BBC em 2012, John Gray conta que Isaiah Berlin ficou baffled quando, menino, testemunhou um policial ser preso por revolucionários depondo a monarquia russa em fevereiro de 1917. O policial estava apavorado, apesar da revolução ter sido alegre, como foi a primavera árabe em 2011. No fim de 1917 viria o golpe bolchevista. Isaiah Berlin desenvolveu uma aversão definitiva à violência, apesar de ter se mudado para Oxford, e de ter vivido em paz o resto de seus dias. John Gray relata que próximo ao fim ele ainda contava a mesma história com frequência. Ambos são historiadores de ideias.
Muitos filósofos do século XX criaram uma associação de ideias de liberdade com democracia, de maneira que quando um ditador é derrubado segue um governo mais democrático, e maior liberdade permeia a sociedade. Esta é a ideia que fez governos ocidentais exportarem seus modelos políticos para Iraque, Afganistão, Líbia. Como soviéticos, católicos e outros fizeram no passado. John Stuart Mill, na época vitoriana, sabia que a liberdade pessoal começaria a encolher quando os governos expressassem o desejo da maioria, ao invés da minoria aristocrática, como era o caso no século XIX. O afilhado de Mill, Bertrand Russell, morrendo aos 98 anos no seu País de Gales em 1970, chocou muitos ao observar que a Grã-Bretanha do pós-guerra era mais democrática que o país vitoriano de sua infância, mas as liberdades pessoais eram menores. No artigo publicado no site da BBC em agosto de 2012, John Gray conclui que para Mill, Russell e ele mesmo, democracia é uma coisa e liberdade, outra. Fora de moda, mas correto.
Gray pondera que os mais velhos pensavam que liberade era uma falta de restrição sobre como a pessoa pode agir. Uma ausência de obstáculos para viver como escolher. Nesta visão, a liberdade é a segurança para a pessoa exercer sua diversidade de objetivos e valores. Se liberdade é vivermos como quisermos, não só tiranos ficam no nosso caminho. Governos fracos, instituições falidas, conflito étnico, crime organizado, tudo incomoda. No México atual e na Colômbia dos anos 80, os cartéis de drogas. Nos Balcãs dos anos 90 as milícias étnicas ligadas ao crime organizado. Um estado de quase anarquia ameaçou a liberdade pessoal mais que a tirania. Em outros casos, é o fundamentalismo. No Iraque hoje não existe mais liberdade pessoal do que no tempo de Saddam Hussein, para mulheres, gays ou minorias religiosas.
John Gray diz que os ocidentais erram quando acham que os problemas islâmicos são uma fase; ignoram que o continente não atingiu estabilidade 150 anos após o início do colapso das monarquias europeias. A extrema direita cresce e democracias tóxicas nacionalistas e xenofóbicas estão emergindo na Grã-Bretanha, França, e mesmo em países das dimensões continentais como EUA, Rússia, Turquia e Brasil.
O pensamento liberal de que a liberdade faz parte da condição natural humana, e que só tiranos a estragam foi abalroado pela realidade recente, que mais uma vez indica que quando um tirano é derrubado, não se sabe o que vem depois, pode ser pior. Isaiah Berlin veio da Rússia dos czares; já sabia que tiranias monárquicas eram contos de fadas perto do bolchevismo. Obama e Clinton usaram e liberdade intelectual para entrar no jogo da violência islâmica; apostaram no baffling, na perplexidade. ONGS colocaram propagandas conflitantes nos EUA, nos domínios de radicais islâmicos e até no Waziristão. Colaram cartazes em postes, colocaram filmes nas TVs. Um negro e uma loira sexagenária, dois tipos de seres que eles desprezam profundamente mataram Bin Laden, e foram soltando os terroristas de Guantanamo. Líderes muçulmanos começam a pedir calma nos protestos, perceberam que vão ser tachados de malucos e fechados em um imenso curral de loucos, como estão a Síria e o Iraque, se todas as representações ocidentais se retirarem. O Ocidente tentou dar um nó na cabeça dos árabes fundamentalistas.  Iranianos e sauditas foram se acalmando. Obama martela que existe tolerância religiosa nos USA, mas não por violência.
Após o trágico Bush, Barack marcou posição numa linha de tiro de flecha de Kennedy a Bill Clinton aos nossos dias, o Bolt da política mundial. Mais cerebral e marcante. Até os ternos de 2 botões colocou em moda. A esperança é que esta capacidade da liberdade de produzir figuras produtivas para o bem geral impeça a prevalência da insanidade da tirania. Alguns imaginam que Michelle Obama venha a ser presidente quando suas filhas estiverem na universidade. Diferentes conceitos de liberdade estão em conflito. Uma opção é bater na tecla da lucidez, e se negar a aceitar que possa existir uma guerra entre malucos, por uma ideia alucinatória, utilizando armas reais.
Leia mais no
Fora da casinha: um ensaio sobre a história da ideia da loucura 1ª edição - ebook
Fora da casinha: uma análise histórica da loucura 2ª edição – livro (55 41 32228801; www.dimpna.com )

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A verdade cerebral

A verdade cerebral
(resumido – ver artigo inteiro em www.crmpr.org.br)
Iátrico, Conselho Regional de Medicina do Paraná, 27:36-38, 2011
Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt


A característica do processo mental saudável é a sua harmonia com a impressão sensorial real do presente, ou com a memória do passado. No delírio esta harmonia se perde. Processos mentais deixam de corresponder à realidade.
Existem:
·       idéias falsas: “delusions”;
·       imagens sensoriais sem impressões sensoriais: alucinações;
·       impressões sensoriais reais podem excitar imagens sensoriais errôneas, chamadas de ilusões, que podem ou não parecer verdadeiras à pessoa;
·       “deception” é uma ilusão que a pessoa identifica como tal.
Esta introdução foi traduzida quase ipsis literis de WR Gowers (1888). O linguajar português parece se omitir nesta área do conhecimento, disputada e polêmica, motivo de muito da minha produção intelectual. Como neurologista interessado nas funções intelectuais, mentais e comportamentais do cérebro. Como escritor, no “Fora da casinha”, a dificuldade com a adaptação de palavras das línguas arcaicas e modernas para a linguagem brasileira foi grande. Talvez a definição da realidade seja complexa, transcultural, multidisciplinar, ao mesmo tempo em pleno desenvolvimento, e muito antiga. A verdade é conhecida há séculos, em línguas que se modificaram. Portanto, é poliglota no sentido mais amplo da palavra. Já se trata de um pequeno delírio querer que tudo se esclareça justo em nossa língua. Talvez não seja um objetivo real expressar a verdade em uma língua moderna, de evolução recente.
Aqui “delusion” é traduzido pela comunidade “psi” como delírio, o que claramente não satisfaz o significado da palavra. Delírio é um filme inteiro que uma pessoa põe para fora, algo que o sistema nervoso central entrega ao ambiente, como a fala, a marcha, a força muscular, os movimentos dos olhos ou da face. Trata-se principalmente de um output do sistema nervoso central. Delusion é um acontecimento isolado, como uma cena, um ato, no máximo um capítulo, e se refere a algo que a pessoa sente. Trata-se, essencialmente, de um input do sistema nervoso central. No sentido neurológico, como os sentidos da visão ou da sensação vibratória, é algo que vem do ambiente para o sistema nervoso central. Uma tradução melhor seria a óbvia: “delusão”.
Talvez a maior dificuldade cultural esteja em conceitualizar que nossa mente pode perceber a realidade de uma maneira errônea. Não só a realidade plástica em torno de nós, mas também o que se passa na mente dos outros. A percepção do estado mental, das intenções das pessoas com quem temos contato, colocado desde os anos 90 na “teoria da mente”, faz parte da realidade do ser humano desde os primórdios da raça, há 40 mil anos atrás, ainda na África. Charles Darwin, em um livro menos conhecido que “A origem das espécies”, já parece indicar que animais e várias raças humanas tinham esta capacidade. Ou seja, a leitura da realidade mental dos outros, inclusive animais, é um fenômeno arqui-genético, está nos genes desde antes de a espécie evoluir.
Mais difícil ainda parece ser conceitualizar que um erro de percepção de realidade possa ser espontâneo. Brotar do cérebro, sem uma causa óbvia nas coisas do dia-a-dia. Produto de um processo mental não saudável, doente. Para Gowers em 1888, isto era corriqueiro, estava em seu livro texto.
O Shorter Oxford English Dictionary é uma boa fonte da origem de palavras em línguas européias. Ali verificamos que “delusion” vem de to delude, do latim tardio, romanesco ou francês antigo; de + ludere. A mesma origem que nossa palavra “lúdico”. O prefixo indica descolar, retirar, portanto delude é brincar enganando, mock, play under the pretence, cheat, impor falsas pretensões ou credos. “Deception”, uma peça de enganação, de truque, como a arte de um mágico, um ato de enganar como quem cola em uma prova, também vem do antigo francês ou do latim tardio. Tem a mesma raiz que enganar, to deceive, de + capere, esta última palavra significando tomar, pegar.
Palavras pequenas, de poucas sílabas, são coloquiais na língua inglesa. Vem desta língua popular do fim do império romano, o romanesco, que também deu origem às chamadas línguas latinas. Os monossílabos, como Paint it black, As tears go by, Get back ou Let it be, são saxões, teutônicos, mais antigos e primitivos. Polissílabos como hallucinari, allucinari, vem do latim mais apurado, ligado aos rituais eclesiásticos cristãos e às classes dominantes do império romano.
Talvez a limitação cultural não seja especialmente deixar de perceber que uma “delusão” pode ser um acontecimento espontâneo, uma imagem sensorial errônea, como escreveu Gowers em 1888. É possível delimitar esta diferença cultural à divisão entre Europa nórdica e latina? Será que todos já sabiam disso antes de 1800? Será que o racionalismo lógico dos iluministas obscureceu esta percepção durante algum tempo? Uma consequência do iluminismo, a psicanálise levaria a uma excessiva psicologização dos problemas mentais que persiste até nossos dias. E a psicanálise seria um evento latino? Sua origem foi em um vôo de Paris, onde Sigismund Freud, neurologista, foi treinado, para Viena, onde trabalhou a vida toda como psicólogo e escritor. Lembra o vôo de Maomé, de Jerusalém a Mecca. Até hoje as pessoas preferem achar que suas visões, experiências divinas, alucinações, ilusões, delírios, tem causa no dia-a-dia, em traumas do passado ou em estados de sofrimento do presente. É mais difícil para a maioria das pessoas entender que um sintoma mental pode ser simplesmente o equivalente cerebral de uma unha encravada, de uma artrite, um vitiligo, e que pode melhorar com remédios ou com técnicas cognitivas.
Na verdade, a realidade se trata, de certa maneira, de uma opção quantitativa. Quanto do real um homem pode estar pronto para encarar? Quanto do touro ele pode pegar pelo chifre? Quanto do seu Keith Richards ou do seu Michael Jackson pode aceitar? E uma mulher, quais serão seus demônios? Todas sabem quem gostariam de ser: uma Joana D’Arc loira que escapasse da fogueira. Mas faria bem uma idéia melhor do que são.
O próximo passo fica mais fácil se o corpo está equilibrado no pé de apoio. Fica límpido o horizonte, fluido o processo mental, que para ser saudável precisa estar em harmonia com a impressão sensorial real do presente, e com a memória do passado. É simples? Absolutamente, de maneira nenhuma. Mas dá para aprender, meio como andar em uma bicicleta de uma roda só.
Referências
1.    WR Gowers. Diseases of the nervous system (1888) Blakiston, Son and Co, Philadelphia. The Classics of Neurology and Neurosurgery Library. Gryphon Editions Ltd, Birmingham, 1983.
2.    Paulo Rogério Bittencourt. Fora da casinha – uma análise histórica da loucura através dos séculos. 2a edição revista e ampliada. Design Editora, Jaraguá do Sul, 2010,
3.    Charles Darwin. The expression of emotions in man and animals and Autobiography. London: The Folio Society, 2008, baseada na 1ª edição da John Murray, 1872.
Shorter Oxford English Dictionary on Historical Principles, 5th Edition, 2002 (Primeira edição 1933), Volumes 1 e 2 (3851 páginas)

GRATIDÃO OS HEROIS DA PANDEMIA