quinta-feira, 9 de junho de 2016

Retribuição

Retribuição
Cardoso Filho

          Matilda tem três pernas. Não, não. Não se trata de aberração da natureza. É uma cachorrinha basset que Maura, minha filha, adotou. Já veio assim, com nome e falta da perna traseira esquerda, e se desconhece a causa da mutilação. Pode ser sido atropelamento, mas também maus tratos. É mistério indevassável. Quando a entregaram à minha filha, já se encontrava amputada. É de desconfiar que tenha sido vítima de alguma violência humana, por seu comportamento em relação a pessoas que lhe são estranhas: reage com latidos a aparentar alguma agressividade, provável que em autodefesa motivada por algum trauma.
          Começou que Maura queria uma cachorrinha. Perdera Dona, uma cadelinha também basset, depois de uma convivência de uns quinze, dezesseis anos. Vieram a saudade e a sensação de que o apartamento ficara vazio. Faltava-lhe vida; faltava a presença alegre e carinhosa da amiga de tanto tempo, que, a certa altura, desenvolveu enfermidade identificada como lúpus, e a doença, com os cuidados adicionais que requeria, mais apertou o vínculo afetivo entre ambas.
          Já escrevi outras vezes sobre Dona. Narrei, inclusive, sua morte assistida diante da velhice inapelável e cruel. Sem motivo para prolongar o sofrimento, Maura tomou a decisão dolorosa de oferecer-lhe a misericórdia do fim. Pois bem, sem Dona, Maura resolveu arrumar outra cachorrinha. Comentou a respeito e a aconselhei a pensar mais sobre o assunto. Bichinho em apartamento dava trabalho, dava despesas, mas isso e mais aquilo, argumentos que eu utilizava para convencer a mim mesmo de não arrumar um cão, ainda que sentisse saudade do tempo em que desfrutei da companhia desses animais tão doces e amigos. Mas ela estava decidida e mais: queria um animal sem pedigree, e podia ser um vira-latas qualquer, e que tivesse algum dano físico.
          Eis o admirável de tudo: querer um bichinho deficiente, mutilado. Um animal que precisasse, mais que outros, de carinhos e cuidados. Não lhe bastaria amar uma cachorrinha como tantas, fisicamente perfeita; precisava de uma que lhe exigisse mais generosidade do coração, mais desprendimento e dedicação. Seu desejo se concretizou quando uma entidade protetora de animais lhe avisou que havia uma cadelinha mutilada à espera de adoção. Foi até lá, viu e se apegou na hora, e nem o fato de a cadelinha não possuir controle sobre suas funções fisiológicas, outra sequela da mutilação sofrida, a fez recuar.
          Foi assim que Matilda ganhou acolhimento, carinho e morada. Dói vê-la   em sua deficiência e mais ainda quando se cogita que isso tenha decorrido de violência humana. É hipótese atroz; melhor supor que tenha sido por, digamos, atropelamento involuntário, embora não saia da mente que a capacidade humana para a maldade não encontra limites. Diante da radiografia de sua coluna, um veterinário admirou-se de que Matilda conseguisse andar. O dano sofrido seria para lhe impedir de locomover-se sem arrastar a parte traseira do corpo. No entanto, caminha bem, a seu modo. E não apenas anda. Corre, e como corre!, Vai meio de lado, compensando a ausência da perna traseira esquerda, e dispara pelos parques.
          Narrei o caso a meu sobrinho Nelson Cardoso Filho, profissional em Biossíntese e Psicoterapia Somática, e ele definiu, de modo inspirado, a disposição e acolhimento de minha filha em relação a Matilda: comovente retribuição à Existência. E recomendou-me que pusesse tudo numa crônica para repartir a história com os amigos leitores. Foi o que fiz.


Junho de 2016.

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