quinta-feira, 23 de março de 2017

Modernidades

Modernidades
Cardosofilho
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O domingo ia se enfiando pela tarde, os convidados para almoço levantaram-se, bem-alimentados e sorridentes, com a sonolência domingueira dando os primeiros sinais, agradeceram, abraços e beijos em despedida, e foram embora. Tudo correra bem – ótima mesa, vinho bom –, exceto por um detalhe. A conversa destoara. Não que tivesse acontecido algum desencontro, algum atrito, nada disso. Apenas que se conversara pouco, porque os computadores, telefones celulares e jogos eletrônicos tiveram preferência e concederam exíguo espaço para a convivência.
Saídas as visitas, o dono da casa refletiu, algo otimista, que, um dia, aprenderemos a lidar com a tecnologia, extraindo dela os seus benefícios sem a ela submeter-se como bichinhos amestrados. Ou agindo como os índios de 1500, quando Cabral aportou nessa terra até então feliz, que se deslumbraram com os maravilhosos e mágicos espelhinhos trazidos pelos portugueses. Talvez tenha se iniciado aí a desgraça dos nativos.
O fenômeno é mundial. O terráqueo é, no momento, um ser de cabeça inclinada e ágeis dedos polegares, sucumbido ao encantamento de se comunicar com o mundo todo por meio dos smartphones. A moda é estar conectado via internet. Como ficar um minuto sem saber o que as amigas e amigos, a patota da escola, ou do clube, ou do grupo tal, está fazendo ou dizendo? Impensável, e há os que não desgrudam de seus aparelhos nem para dormir: levam-nos para a mesinha de cabeceira ou para debaixo do travesseiro, na expectativa da chegada, a qualquer momento, de novas mensagens, mesmo que interrompam o melhor do sono.
Falei em polegares hábeis e ressalvo: os dos jovens. Os meus, por exemplo, não conseguem digitar de modo sequer aceitável o teclado do celular. Utilizo apenas o dedo indicador direito, mesmo assim com precariedade irritante tantos os erros cometidos, deficiência que me obriga a ser o mais sucinto possível nas mensagens. Vejam que, meio sem querer, entrei no WhatsApp, o aplicativo do momento para as comunicações via smartphones (tem também o Facebook, mas fiquemos só no outro). Chegou e desbancou a concorrência, sem piedade. É mesmo do balacobaco. Mas, e sempre tem de vir esta conjunção adversativa, foi tomado pelo mau uso. Na maior parte do tempo, serve para a troca de bobagens, mentiras e futilidades, em textos ou imagens. A agravar, o aplicativo possibilita a formação de grupos de conversas, cada qual com numerosos integrantes, e aí o intercâmbio de mensagens torna-se massacrante, a ponto de se ter de escolher entre fazer algo útil durante o dia, como trabalhar, por exemplo, ou dedicar-se a atender avisos de chegada de novas mensagens.
Adotei abrir o WhatsApp apenas uma ou duas vezes ao dia. Resulta-me, no entanto, o acúmulo de mensagens, sessenta, setenta delas, muitas em vídeo, vários destes longos, além de algumas mensagens de textos quilométricos, muito agradáveis de ler na telinha do smartphone. E vem a questão: abrir uma por uma? Mandar para a lixeira sem olhar? E se, em meio, há mensagem merecedora de atenção? Caso sério. Eis, amigos, um encargo que a modernidade nos acrescentou às tarefas do dia a dia, como se já não tivéssemos o suficiente.
Renovo confissão antiga: sou de outro tempo. De época em que inexistia toda a parafernália tecnológica de hoje e vivia-se bem. Claro que muitos avanços tornaram a vida mais cômoda e melhor, mas sinto falta do bom e confiável telefone fixo, quase em desuso e caminhando para a extinção. Mais ainda daqueles pretos (se me permitem tal definição de cor), robustos e pesados, que não corriam o risco de, puxados pelo fio, escorregarem da mesa para o chão. Sem escolha, adapto-me como posso às modernidades, com vontade, de vez em quando, de descartar o smartphone, mas, ai!, como viver desconectado da família, dos parentes e amigos, como fosse um bicho estranho, meio pré-histórico? Então, vou levando, saudoso do tempo em que o telefone se prestava apenas à maravilhosa finalidade de permitir que as pessoas, à distância, falassem e ouvissem umas às outras.

Março de 2017.

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