quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Liberdade, tirania, insanidade e religião

Liberdade, tirania, insanidade e religião
Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt
No fim da década de 1990, passeando pelo sul da Escócia em um intervalo de congresso, uma eslovena tentou convencer a mim, croata, que a guerra da Iugoslávia era o início da 3ª Guerra Mundial, a ser travada entre islâmicos e ocidentais. Hoje, o Papa Francisco não só usa esta equação frequentemente em seu discurso, como toma atitudes muito claras nesta direção. Dialoga com seus pares judeus e ortodoxos, e faria o mesmo com um líder islâmico se houvesse um interlocutor definido. Tem a confiança e obtém resultados de negociações com agnósticos e ateus com facilidade espantosa, como as famílias Obama, Clinton e Castro.
Há poucos anos coloquei este assunto em um artigo breve (Gazeta do Povo, referência perdida!) e outro completo (A Liberdade e Tirania, passando por Mill, Berlin, Gray, Obama e Maomé. Iátrico (CRMPR) 31:15-17, 2013). Assim como meu livro Fora da Casinha, estas ideias previram e explicam em parte o caos atual do confronto com os islâmicos. Mas precisam uma revisão para acomodar fenômenos como Donald Trump, o Brexit e a invasão da Europa pelos imigrantes.
Alguns eventos podem provocar uma emoção descrita em inglês como “baffling”, do verbo “baffle”, originado do provençal ou francês antigo, da sensação de perplexidade que atingiu Hillary Clinton quando o embaixador americano foi morto em Benghazi em 2012. A mesma sensação criada pelo filme sobre o Profeta divulgado na Califórnia logo em seguida. Líderes islâmicos demoraram para resolver se orientavam seus pupilos a atacar ou protestar nas ruas.
Em um artigo publicado na BBC em 2012, John Gray conta que Isaiah Berlin ficou baffled quando, menino, testemunhou um policial ser preso por revolucionários depondo a monarquia russa em fevereiro de 1917. O policial estava apavorado, apesar da revolução ter sido alegre, como foi a primavera árabe em 2011. No fim de 1917 viria o golpe bolchevista. Isaiah Berlin desenvolveu uma aversão definitiva à violência, apesar de ter se mudado para Oxford, e de ter vivido em paz o resto de seus dias. John Gray relata que próximo ao fim ele ainda contava a mesma história com frequência. Ambos são historiadores de ideias.
Muitos filósofos do século XX criaram uma associação de ideias de liberdade com democracia, de maneira que quando um ditador é derrubado segue um governo mais democrático, e maior liberdade permeia a sociedade. Esta é a ideia que fez governos ocidentais exportarem seus modelos políticos para Iraque, Afganistão, Líbia. Como soviéticos, católicos e outros fizeram no passado. John Stuart Mill, na época vitoriana, sabia que a liberdade pessoal começaria a encolher quando os governos expressassem o desejo da maioria, ao invés da minoria aristocrática, como era o caso no século XIX. O afilhado de Mill, Bertrand Russell, morrendo aos 98 anos no seu País de Gales em 1970, chocou muitos ao observar que a Grã-Bretanha do pós-guerra era mais democrática que o país vitoriano de sua infância, mas as liberdades pessoais eram menores. No artigo publicado no site da BBC em agosto de 2012, John Gray conclui que para Mill, Russell e ele mesmo, democracia é uma coisa e liberdade, outra. Fora de moda, mas correto.
Gray pondera que os mais velhos pensavam que liberade era uma falta de restrição sobre como a pessoa pode agir. Uma ausência de obstáculos para viver como escolher. Nesta visão, a liberdade é a segurança para a pessoa exercer sua diversidade de objetivos e valores. Se liberdade é vivermos como quisermos, não só tiranos ficam no nosso caminho. Governos fracos, instituições falidas, conflito étnico, crime organizado, tudo incomoda. No México atual e na Colômbia dos anos 80, os cartéis de drogas. Nos Balcãs dos anos 90 as milícias étnicas ligadas ao crime organizado. Um estado de quase anarquia ameaçou a liberdade pessoal mais que a tirania. Em outros casos, é o fundamentalismo. No Iraque hoje não existe mais liberdade pessoal do que no tempo de Saddam Hussein, para mulheres, gays ou minorias religiosas.
John Gray diz que os ocidentais erram quando acham que os problemas islâmicos são uma fase; ignoram que o continente não atingiu estabilidade 150 anos após o início do colapso das monarquias europeias. A extrema direita cresce e democracias tóxicas nacionalistas e xenofóbicas estão emergindo na Grã-Bretanha, França, e mesmo em países das dimensões continentais como EUA, Rússia, Turquia e Brasil.
O pensamento liberal de que a liberdade faz parte da condição natural humana, e que só tiranos a estragam foi abalroado pela realidade recente, que mais uma vez indica que quando um tirano é derrubado, não se sabe o que vem depois, pode ser pior. Isaiah Berlin veio da Rússia dos czares; já sabia que tiranias monárquicas eram contos de fadas perto do bolchevismo. Obama e Clinton usaram e liberdade intelectual para entrar no jogo da violência islâmica; apostaram no baffling, na perplexidade. ONGS colocaram propagandas conflitantes nos EUA, nos domínios de radicais islâmicos e até no Waziristão. Colaram cartazes em postes, colocaram filmes nas TVs. Um negro e uma loira sexagenária, dois tipos de seres que eles desprezam profundamente mataram Bin Laden, e foram soltando os terroristas de Guantanamo. Líderes muçulmanos começam a pedir calma nos protestos, perceberam que vão ser tachados de malucos e fechados em um imenso curral de loucos, como estão a Síria e o Iraque, se todas as representações ocidentais se retirarem. O Ocidente tentou dar um nó na cabeça dos árabes fundamentalistas.  Iranianos e sauditas foram se acalmando. Obama martela que existe tolerância religiosa nos USA, mas não por violência.
Após o trágico Bush, Barack marcou posição numa linha de tiro de flecha de Kennedy a Bill Clinton aos nossos dias, o Bolt da política mundial. Mais cerebral e marcante. Até os ternos de 2 botões colocou em moda. A esperança é que esta capacidade da liberdade de produzir figuras produtivas para o bem geral impeça a prevalência da insanidade da tirania. Alguns imaginam que Michelle Obama venha a ser presidente quando suas filhas estiverem na universidade. Diferentes conceitos de liberdade estão em conflito. Uma opção é bater na tecla da lucidez, e se negar a aceitar que possa existir uma guerra entre malucos, por uma ideia alucinatória, utilizando armas reais.
Leia mais no
Fora da casinha: um ensaio sobre a história da ideia da loucura 1ª edição - ebook
Fora da casinha: uma análise histórica da loucura 2ª edição – livro (55 41 32228801; www.dimpna.com )

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