sexta-feira, 16 de junho de 2017

Padres de passeatas

Padres de passeatas
Cardosofilho
Era 9 de outubro de 1958, quinta-feira, e morria o Papa Pio XII, pondo fim a um pontificado que vinha desde março de 1939. Polêmicas à parte sobre sua atuação durante a Segunda Guerra Mundial, que o tempo – sempre ele – cuidou de esclarecer não ter sido antissemita, o “Papa de Hitler” como os comunistas quiseram vender ao mundo, aos meus olhos de garoto de treze era quase santo. Santo em vida. Não por acaso, nós católicos o reverenciávamos com o tratamento de santo padre.
Havia, até, na parede da sala de nossa casa, um quadro com a bênção papal dirigida a meu pai, trazida de Roma por um padre amigo, em que Pio XII aparecia de perfil. Para ajudar, o perfil do papa lembrava o de meu pai, ambos donos de um nariz proeminente, que, por sinal, também trago. Também as armações dos óculos eram semelhantes.
A notícia da morte chegou no começo daquela tarde bonita (me lembro ainda do azul e do sol), anunciada pelo alto-falante da Igreja Matriz. Logo depois da notícia, fui à agência platinense do Banco do Estado do Paraná. Encontrava-se lá um rapaz debochado e anticlerical, dono de invejável humor. Em voz alta, proferiu algumas apreciações chocantes sobre o papa morto. Algo como “já está no Inferno” ou “já foi tarde”. Em meio a risadas de uns e outros, as ofensas me horrorizaram. Blasfêmias, considerei, e o rapaz corria sério risco de ser duramente castigado. Naquele então, padres não pecavam, ou pecavam pouco, quase nada, só pecadilhos veniais, assim eu acreditava em minha densa ingenuidade. Com os passar dos anos, minha relação com o catolicismo oscilou. Às vezes, frequentando missas, em outras, algo distante, meio esquecido das orações, mas com o respeito de sempre. A fé plantada na infância estava lá, intacta, embora assediada por dúvidas jamais resolvidas. A relação abalou-se para valer quando surgiu a insidiosa Teologia da Libertação, voltada para a infeliz América Latina tão vítima de trágicos embustes populistas. Alguns, ou muitos, padres, resolveram vestir a batina vermelha do marxismo-leninismo. Era a Igreja, ou parte dela, defendendo não os pobres, o que seria louvável, mas pregando, sob a aparência de solidariedade aos desassistidos, a ideologia nefasta estimuladora do conflito social.
O papa João Paulo II, que trazia a experiência de haver vivido na Polônia sob a opressão e crueldade do comunismo soviético, sabiamente combateu a Teologia da Libertação e sua legião de padres marxistas, entre os quais brilhava, como uma estrela vermelha, Leonardo Boff. A intervenção de João Paulo II foi providencial e fez a Igreja, na América Latina, retornar à sua missão pastoral genuína. Mas a Teologia da Libertação não morreu. Foi contida, apenas. Bastou o Brasil mergulhar nos anos de governo petista para que ela recrudescesse e mostrasse as presas.
Recentemente, a Igreja, por intermédio da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), voltou a se manifestar sobre temas políticos, com inclinação claramente ideológica. Em lugar de cuidar dos padres transgressores e outros problemas candentes que ardem em seu seio, além, é claro, de tratar do espiritual, põe-se contra reformas necessárias à vida dos brasileiros. Alia-se a sindicatos comandados pelos pelegos sustentados pela contribuição sindical obrigatória, enfia-se em assuntos que fogem à sua missão, descarrilha e desgasta sua já maltratada autoridade moral. Depois, se angustia e se pergunta por que ovelhas se afastam de seu rebanho. Pois intervenções desastradas assim, esses equívocos lamentáveis da CNBB, com certeza fazem parte dos motivos.
Para nossa tristeza, os padres de passeatas, expressão saborosa inventada nos anos 1960 pelo cronista Nelson Rodrigues para identificar os clérigos marxistas, parecem estar de volta. Não há crente que resista.


Maio de 2017.

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