quinta-feira, 29 de junho de 2017

Aplauso dos medíocres

Aplauso dos medíocres
Cardosofilho
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Reunido com amigos para o almoço trivial de uma segunda-feira, calhou de falarmos sobre a inveja e vaidade humanas, e só poderiam ser humanas, pois os demais bichos, sem a inteligência que acreditamos que tanto nos diferencia e nos torna superiores a eles, têm a perfeição de não carregar esses dois incômodos sentimentos. Conversávamos sobre o mundo das artes, em que o sucesso alheio costuma machucar e exasperar. Ocorreu-me então dizer que a inveja é o aplauso dos medíocres. Um dos amigos indagou se a frase nascera ali, naquele instante, ou se a havia lido em algum lugar. Respondi que me viera naquele momento. Guilherme, meu filho, sentado à minha frente, desconfiou: “Acho que já ouvi essa frase antes”. A dúvida se instalou. Teria sido eu, naquele preciso momento, o autor ou a frase, recolhida alhures, estivera adormecida em meu cérebro e me assaltara de repente, despertada pelo tema da conversa? Recomendei, então, que consultássemos o Google.
Foi o que fiz, ao chegar em casa. Nada encontrei, de modo que proponho a tarefa aos amigos leitores. Longe de mim querer me apropriar do alheio, mas, por ora, salvo prova em contrário, a frase é de minha autoria, surgida na informalidade e leveza de um almoço com amigos.
Sobre vaidade, dela sofro só um pouco, exprimida em detalhes que não fazem mal a ninguém. Por exemplo, desde garoto gosto de ter os sapatos bem limpos, e há uma cena, eu já homem feito, que ficou registrada a título de troça: numa feira de exposição de gado, sob a poeira que tomava o ar quente da tarde, retirei do bolso um lenço de papel e espanei o pó dos sapatos. Pois é assim. Incomoda-me que não estejam limpos e polidos e considero que sapatos malcuidados liquidam qualquer pretendida elegância. Outro sintoma: dentro de minhas possibilidades, procuro estar adequadamente vestido.  Hoje, dedicado ao ofício de escrever, melhor seria dizer passatempo, aderi à informalidade das calças de brim, uma boa invenção, sem dúvida. Vez ou outra, bem raramente, visto terno e gravata, e então cuido de combiná-los bem. O que mais posso acrescentar à minha vaidade? Ah, sim, gosto de andar com os cabelos cortados e penteados. Enfim, amigos, nada excessivo.
Quanto à inveja, dela não padeço. O sucesso alheio não me incomoda. Tenho a humildade de reconhecer os méritos dos que chegaram ou chegam mais longe. É a vida, por isso vou tocando do que dela ainda me sobra, satisfeito em poder conversar com os amigos por meio de minhas crônicas, com a única e vaidosa pretensão de ter meus textos lidos e apreciados. É suficiente. A literatura é caminho íngreme e áspero, repleto de acasos e segredos, e poucos chegam ao topo chamado sucesso, este traduzido em elevada vendagem de livros e recompensa financeira.  Fico no cronista amador, o que, em dito antigo e popular, está bom para o meu tamanho e grossura do pescoço.

Junho de 2017.

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