quinta-feira, 18 de maio de 2017

Velas

Velas
Cardosofilho
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Um amigo relatou-me que há um ano perdeu um neto de apenas dois anos de idade. E mostrou-me, no celular, pequeno vídeo em que o neto aparece transbordando vida, correndo e brincando. Mostrou-me também fotografias. E comentamos sobre a dor lancinante que perdas como essa provocam. Lembrei-me de Lurdes Maria, irmã que não conheci, pois morreu bem antes de eu nascer. Mas sobre ela minha mãe contava, e falava com tanto carinho e saudade da filha que se foi aos quatro anos de idade, que seus olhos terminavam marejados. O tempo decorrido, já tão longo, jamais preencheu o vazio deixado por Lurdes Maria, a Lurdinha, em seu coração.
Voltei para casa pensando na morte. E ocorreu-me que somos velas. Sim, velas, de comprimentos variados, mais longas, menos longas. Acendem-se quando nascemos, queimam-se e derretem ao longo da vida. Um dia, apagam-se. E há as que já vêm pequenas. Destinadas a se apagarem logo, como o neto de meu amigo, como minha irmã Lurdes Maria. E, sem explicação para as tragédias, sofremos demais. Há os que têm a fé na vida depois da morte. A viagem para paragens onde tudo encontra explicação. Eis por que se acendem velas em torno dos caixões dos mortos. A simbolizarem a vida eterna. A chama, terrena, se apaga, a outra se acende para sempre.
Ninguém sabe como é a morte. Por mim, gostaria que fosse o sono eterno. Não carrego muita coisa a acertar depois dela. Não cometi graves erros, ou pecados, nem pretendo cometê-los até o último alento da chama, tampouco sou dono de grandes virtudes. Somando e subtraindo, noves fora, calculo que ficaria na média, sem merecer o Céu, em que imagino servirem à farta bananas à milanesa, deliciosas, doces e crocantes como só podem ser no Paraíso, nem o Inferno de Dante, com os terríveis suplícios imaginados pelo poeta para castigar seus desafetos terrenos. Mas creio haver o depois e, se não existisse, teríamos de criá-lo. Há gente que parte desta vida arcada sob o peso de débitos ignominiosos. Se não houvesse o tribunal da Eternidade, como ficariam as contas, por exemplo, de um Stalin, de um Hitler, de um Pol Pot, para citar apenas três genocidas mais recentes? Ou os piores criminosos? Se morrer fosse apenas o dormir sem fim, descansariam eles, e todos os pulhas e lixos humanos da história, sem ajustar contas junto ao Criador? De que valeria o Bem? Duma vez, a existência não teria sentido e todas os padeceres terrenos, como a perda de nossas crianças, seriam insuportáveis.
É, estimado amigo, seu neto foi uma pequena vela cuja chama um sopro repentino e misterioso apagou. Diante de tragédias assim, o que mais nos resta além da crença antiga e popular de que Deus colhe crianças para fazê-las seus pequenos anjos? Ideia ingênua e infantil, pode ser, mas tão doce e confortadora que merece acolhida em nosso coração. Imaginemos que ele foi uma pequena vela, destinada a extinguir-se logo. Mas o luzir de sua chama, assim como a de Lurdes Maria, minha irmã, permanecerá na memória enquanto esta for capaz de recordar.

Maio de 2017.  

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