quinta-feira, 4 de maio de 2017

Em tempos difíceis

A ética da sobrevivência


A pirâmide de Maslow é uma sugestão de crescimento diante de um ambiente social num ambiente equilibrado. E quando tudo se desmancha em volta? Em situações extremas a maioria dos seres humanos desce ao piso mais selvagem. Errado?
De alguma forma a Natureza testa seus componentes e daqueles submetidos às piores situações o resultado tem sido a ascensão posterior de pessoas extraordinárias, se razoavelmente sadias.
Lutar por si é uma quase exigência natural diante de todas as possibilidades de destruição. Desde desastres provocados pelo ser humano até catástrofes naturais e monumentais, por todo lado a humanidade já passou por violências incríveis, com reduções drásticas de população.
A sobrevivência torna-se o resultado de esquecer, superar, contornar dores imensas.
O medo, tem sentido? É justo?
Dentro da compulsão à sobrevivência o ser humano sente medo, ou seja, a mensagem íntima de sua existência poderá terminar. Não é natural querer sofrer ou morrer e isso só aparece em situações extremas ou após processos educacionais alienantes, sempre prometendo recompensas etéreas.
Queremos viver.
Nossos instintos só negam a vida quando sentimentos de baixíssimo amor próprio dominam nossas mentes ou somos o produto de processos de lavagem intelectual, algo fácil de ver entre torcidas organizadas. Os métodos de fanatizarão não se restringem a motivações nobres, o que é assustador.
Basicamente se educamos nossos filhos a querer viver estaremos lhes ensinando a cuidar de suas vidas em ambientes onde provocações maldosas devem ser superadas.
Devemos também mostrar que o padrão moral mais íntimo é pessoal, singular. Todos, sem exceção, formam códigos pessoais de conduta com a interpretação própria do significado das palavras que utilizam. Nesse sentido o livro Arqueologia do Saber (Foucault, A Arqueologia do Saber) é de leitura e reflexões obrigatórias, pois precisamos sempre lembrar que a compreensão exata das palavras que usamos é algo pessoal e intransferível, pois quem nos ouve, lê, estuda etc. terá seu dicionário embutido em sua cabeça (Wittgenstein).
Criamos, portanto, um Ética Instintiva.
Com certeza nossos padrões podem variar, mas querer a felicidade e a vida com qualidade é algo natural. Sejam quais forem os argumentos e estereótipos procuraremos coerência com aquilo que acreditamos realmente, na dimensão de nossos instintos e crenças pessoais.

Finalizando um esboço de livro


Viver é um projeto pessoal, singular, exclusivo que todo ser material decide, ou melhor, escolhe a partir de sua origem, educação, saúde etc.
A complexidade e irreversibilidade de muitas decisões exigem a cada passo o máximo de consciência sobre si mesmo, se isso estiver ao alcance do ser eventualmente pensante.
Podemos escalonar passos, devemos saber e aceitar riscos para não termos arrependimentos que romancistas de primeira linha descreveram em livros geniais, ou seja, é fundamental responder permanentemente:
a)    Quem sou eu
b)    O que eu quero ser
c)     O que posso ser
d)    Como atingir meus sonhos e projetos
e)    Ser feliz e disposto a pagar o preço das decisões tomadas
A felicidade é um objetivo real e supremo e nesse caminho a crença religiosa poderá protelar esse estado de alegria para o outro mundo. Ao longo da história da Humanidade o culto ao medo (Cascaes, Procurando Saber, Entender, Aprender Filosofia, História e Sociologia - SEM CENSURA), a crença em pecados e a angústia de existir convenceram grandes nações a optarem pela vida pobre, miserável, imaginando riquezas no outro mundo.
Com certeza a vida ruim torna a morte bem-vinda, e vice-versa. Viver bem e morrer tranquilamente só serão possíveis se desenvolvermos disciplina intelectual e tranquilidade ética, moral e comportamental de modo a não termos arrependimentos.
Vivemos em tempos esfuziantes, inebriantes, entorpecidos pelas luzes e nos desafios das cidades. Com facilidade poderemos trilhar caminhos artificiais e pretendermos afirmação pessoal esquecendo a importância e prazeres de uma família saudável, por exemplo.
Precisamos de desafios, carecemos de situações que temperem a personalidade, são essenciais àqueles que sonham ter orgulho de suas vidas. Subir a montanha é gostoso, apesar dos riscos de acidentes. O essencial, contudo, é termos consciência do custo dessas aventuras. Nada mais triste do que o arrependimento.
Ética, moral, religião, ideologia, hábitos e modelos formam figurinos. À nossa volta poderemos identificar padrões e consequências...

João Carlos Cascaes
Curitiba, 4 de maio de 2017

Foucault, Michel. A Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária Ltda., 2010.




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