quinta-feira, 25 de maio de 2017

Paga lo que debes

Paga lo que debes
Cardosofilho
Meu amigo petista perguntou sobre meu desconforto em relação ao que está sucedendo com o governo Temer, que ele e todos os petistas insistem em chamar de golpista. Lembrei-lhe então que Michel Temer foi sócio do PT durante os anos do governo de Dilma Rousseff, de lamentável memória. Foi tão poste quanto Dilma, e se pode dizer que constituiu também criação de Lula. Eu, por exemplo, jamais teria votado em Michel Temer para presidente da república (muito menos em Dilma, fique claro). Ele está no cargo por esses acasos do destino. Era o vice, a presidente foi defenestrada e ele assumiu o posto. Aí os petistas passaram a berrar que ele arquitetou a queda de Dilma Rousseff. Vamos lá que ele, a partir de certa altura dos acontecimentos, começou a tramar os pauzinhos e anunciou até uma “ponte para o futuro”, um plano de governo de transição para o caso de o impeachment acontecer. Naquela altura, matreiro que é, viu que a nau naufragava e era hora de ele e o PMDB pularem fora. Mas o fato é que Dilma foi afastada não por ter sido vítima de conspiração. Caiu foi de podre. Caiu porque estourou as contas públicas e jogou o Brasil na maior recessão da história, sem contar que, na campanha eleitoral de 2014, mentiu desavergonhadamente aos brasileiros. Maquiou números para dizer em palanque que tudo andava em perfeita ordem na economia. Prometeu ao povo o que sabia não poder entregar. Puro conto do vigário. De modo que o impeachment foi castigo mais que merecido, a premiar a incompetência e a má-fé.
Esse amigo gosta de provocar. Insistiu em me convencer de que tem razão e me despejou os clichês que a esquerda é pródiga em criar e repetir até à náusea. Com alguma paciência, expliquei-lhe que não sou a favor de Michel Temer (aliás, sou de difícil apego); sou apenas a favor do Brasil. Que lamento o que está ocorrendo, sem que vá aí qualquer tentativa de defender o presidente. Como dizia a velha canção “El Bodeguero”, gravada nos anos 1950 por, entre outros, Nat King Cole, “toma chocolate, paga lo que debes”. Quem deve, que pague. E segui a dizer-lhe que o país precisa é sair do buraco econômico, limpar-se da miséria moral em que se encontra e chegar às eleições de 2018 sem danos à democracia. Com Temer ou sem ele. Se cair, caiu, e vamos em frente.
Ele não se convenceu. O desejo petista é tripudiar sobre os que foram favoráveis à saída de Dilma, os golpistas entre os quais me incluo. Querem vingança, a desforra, o “fora Temer!”, sem medir consequências. Fanáticos são assim. Da esquerda ou da direita, têm a mente emparedada, prisioneira de uma ideia fixa, e pretender lhes abrir o entendimento é, em geral, gastar vela boa com defunto ruim. As utopias enlouquecem os homens.
Mas conversões, como os milagres, ocorrem. Uma amiga de longuíssima data era devota petista e defendia Lula e Dilma com ferocidade. A Lula, principalmente, o grande líder, o genial condutor, o guia infalível. Eu me espantava – como pode, meu Deus?! Uma mulher inteligente, de boa formação intelectual, e, no entanto, agarrada ao maior dos embustes. Claro que meu espanto era desnecessário. Muitos tidos por intelectuais, como um Chico Buarque da vida, mantêm a nefasta fé. Estão em toda parte, como erva daninha, a infestar a cultura nacional. Pois a petista que parecia incurável sofreu um choque de consciência e de lulista ardorosa passou o execrar o ilusionista Lula e o petismo voraz, e o faz em redes sociais para dar publicidade à sua desilusão. Confesso meu alívio e alegria. Sua conversão foi um rasgo de sanidade em meio a tanta doideira.

Maio de 2017.  

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