terça-feira, 25 de abril de 2017

Caixa dois

Caixa dois
Cardosofilho
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Lula sugeriu um dia, cinicamente, que caixa dois se tratava de prática comum na política brasileira. Um delito menor, leve, digamos assim. Isso aconteceu na época do mensalão e o amigo leitor deve se lembrar da entrevista. Agora, o brasileiro constata que os caixas dois dos partidos políticos, abastecidos com dinheiro originado da gigantesca rede de corrupção que se instalou no País, na qual se enredaram políticos influentes, grandes empreiteiras de obras públicas e altos executivos de empresas estatais, constituem crime gravíssimo. A gravidade revela-se nas delações premiadas obtidas no âmbito da Operação Lava-Jato, em especial as dos executivos da Construtora Odebrecht. Embora o tema chegue quase a saturar a paciência do cidadão, faz sentido o martelar. É grave para valer. Do destino que se der à podridão já mostrada e da que ainda virá à tona, dependerá a sorte do Brasil, para o bem ou para o mal. A escolha é sempre nossa.
A ferida, convenhamos, é antiga, mas gangrenou sob a corrupção desbragada promovida pelo insano projeto de poder lulopetista. E por que essa infecção prossegue a ferir de morte nossa democracia? A resposta é simples. Continua para pagar os custos altíssimos das campanhas eleitorais e alimentar os vorazes bolsos dos políticos safados e empresários e executivos inescrupulosos. Não por acaso, Marcelo Odebrecht, um dos delatores e ex-presidente da Construtora Odebrecht, afirmou que, no Brasil, só se ganha eleição com o auxílio de caixa dois.
Para reduzir drasticamente os gastos descomunais sugados pelas campanhas, um dos caminhos será proibir a exibição, no horário político gratuito na TV, de propaganda em vídeos ou filmes. Produzidos sob a orientação de marqueteiros como Duda Mendonça e João Santana, profissionais pagos a peso de ouro por meio até de depósitos clandestinos no exterior, esmeram-se na técnica de manipulação das emoções, custam fortunas, falsificam a verdade e ludibriam os eleitores. Basta lembrar a eleição presidencial de 2014, mais à mão. Vedado esse meio de propaganda, a apresentação dos candidatos se restringiria à divulgação de suas imagens e propostas, ao vivo ou gravadas, sem nenhum outro recurso de comunicação.
Em complemento, vedar a cessão, entre partidos, de tempo no espaço gratuito reservado para a propaganda eleitoral no rádio e na TV. Seria o fim das coligações partidárias tramadas para essa mercantilização rasteira, que ajuda partidos nanicos, sem expressão popular e razão de existir, a sobreviver e encarece as campanhas.
Estranhável é que soluções como as apontadas acima, saudáveis para a democracia, sejam desconsideradas por nossos políticos. Ao contrário, estes empenham-se em obter mais dinheiro público para gastos eleitorais, como se o bolso do contribuinte fosse uma cornucópia inesgotável de dinheiro, capaz de suportar os mais descarados abusos.
Os partidos políticos precisam manter-se com suas próprias pernas, estribados em apoio popular, sem o socorro da UTI caríssima – o fundo partidário – sustentada com os impostos dos contribuintes. Que se virem, ao modo como fazem os clubes sociais, de futebol etc., com as contribuições legais dos filiados e simpatizantes. Com certeza, a política brasileira será bem menos desonesta e mais democrática, e, quem sabe, deixaremos de ser uma republiqueta ridícula e constrangedora.

Abril de 2017.

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