quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Promessa

Promessa
Cardosofilho
          Pois aconteceu de novo. Mais uma vez a Boca do Brilho serve de cenário para uma crônica. Conto-lhes o caso. Depois de encontrar-me com amigos, no sábado, na Boca Maldita, fui à Boca do Brilho engraxar os sapatos. Sentei-me numa cadeira, o serviço começou e o engraxate, agora lustrador, como consta no uniforme que veste, informou-me sorrindo que não havia jornal disponível para a cortesia habitual. Respondi, que, hoje, com a abundância de informação via internet, jornais impressos quase não fazem falta e estão condenados a desaparecer, devorados pela tecnologia, destino de outras tantas coisas. Assim caminha a humanidade (título de velho e ótimo filme): morre uma época e outra nasce. Mas onde eu estava mesmo? Ah, sim, conversava com o engraxate, que lhes apresento: Aparecido, nascido em 1959, cabeça grande quase toda tomada pela calvície, óculos de aros grossos. Logo falamos dos 3 a 0 da seleção brasileira sobre os argentinos, e o assunto deu oportunidade para ele lamentar a situação de seu time, o Paraná Clube, que vai mal das pernas, no morre-não morre, mais para morre, mantendo-se com muito esforço na segunda divisão do campeonato brasileiro. Aparecido é bem-informado e esperto. Sabe que más administrações liquidaram com quase todo o patrimônio do clube, no passado um dos maiores entre os clubes brasileiros. Concordei, e acrescentei que o desastre começou em junho de 1971, quando fundiram Ferroviário, Palestra Itália e Britânia para dar lugar ao Colorado, denominação que trazia o defeito de ser apelido do Internacional de Porto Alegre e marca de televisor; que jamais deveriam ter jogado fora o nome, a camisa, a história e a mística do Clube Atlético Ferroviário, dono de numerosa e ardorosa torcida, a Boca Negra. Era o tempo do “trio de ferro” paranaense, formado por Coritiba, Atlético e Ferroviário, protagonistas entre si de rivalidades históricas e eletrizantes clássicos. Depois, em 1989, fundiram Colorado com Pinheiros, do que resultou o atual Paraná Clube, cuja camisa, metade azul e metade vermelha separadas na vertical, mais parece camisa de jóquei (por falar em jóquei, eis outro cadáver do passado: o turfe paranaense). Foi o resumo que fiz a Aparecido, da tragédia do antigo e saudoso Clube Atlético Ferroviário e do melancólico momento do Paraná Clube.
          Aparecido aproveitou a conversa e me contou, transbordando orgulho, que possui um neto, Lucas Pimentel, que promete ser craque de futebol e compensar-lhe todas as frustrações passadas, presentes e futuras. Encontra-se com onze anos, joga no meio de campo e treina na escolinha do Coritiba, e fez questão de apanhar o celular que estava carregando, desconectou-o, pôs-se a procurar a fotografia do neto, pediu desculpa pela interrupção do serviço, disse-lhe para não se preocupar, havia tempo, por fim a encontrou e, feliz, estendeu-me o aparelho para que eu conhecesse o neto. Lá estava o garoto magrinho, abraçado por Krüger, o Flecha Loira, lenda do Coritiba F.C., homenageado com bonita estátua de bronze, em tamanho natural, na entrada do estádio Couto Pereira. Segundo Aparecido, bastou seu neto Lucas Pimentel jogar quinze minutos no teste, para Krüger, observado técnico, dar-se por satisfeito e pedir ao clube que o admitisse na escolinha.
          O avô sonha com a glória futura do garoto. Segundo ele, tem tudo para dar certo como jogador profissional e, desde já, cuida de orientá-lo. Se a glória vier, traduzida em bons contratos, que não corra a comprar carro de luxo, correntes de ouro, brincos de brilhantes. Juízo, cuidado com o preparo físico, sem noitadas, sem baladas, prevenido de que a carreira é curta, vinte anos no máximo, e é preciso fazer o famoso pé-de-meia para enfrentar o futuro depois da bola.
          O amigo leitor anote o nome: Lucas Pimentel. Uma promessa que Krüger cuida de ensinar e aprimorar. Talvez venha a ser grande revelação coxa-branca daqui mais seis, sete anos. Se falhar, bem, cobremos do avô Aparecido, na Boca do Brilho, que fez a esperança brilhar também para mim.


Novembro de 2016.

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