quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Lá, onde ninguém morre


Cardosofilho
Na manhã chuvosa de 9 de novembro, recebi a notícia do falecimento de meu primo Edeval Gonçalves de Azevedo. A última vez em que tive o prazer de vê-lo deu-se em setembro de 2009, por ocasião do lançamento, em Santo Antônio da Platina, de meu livro “Conversas na Sala de Visitas”. Lá estava ele a prestigiar o evento e a ousadia literária do primo. Aparentava boa saúde, mas não sei se, já então, os primeiros sintomas da fibrose pulmonar que o matou se manifestavam. Doenças graves costumam ser assim, ardilosas como cobras. Infiltram-se sorrateiras no organismo, produzem alguns sintomas ligeiros, a presa considera que não se trata de nada importante, uma tossezinha, um mal-estar que logo passa, e toca a vida como se nada ocorresse de anormal. Até que os sintomas se agravam e a enfermidade revela toda a sua maldade e ferocidade. É o bote da cobra, e nem sempre há tempo para a cura, quando há cura. Mas não pretendo dissertar sobre a doença que o atingiu. Apenas, para pôr termo ao assunto, direi que sua enfermidade foi daquelas que embarcam no trem, sentam-se ao nosso lado e avisam que irão conosco até o fim da viagem, e aí o cidadão tem de se conformar com a companhia e arrumar um modo de conviver com ela. E, se possível, fazer alguma amizade.
          A notícia despertou-me boas lembranças. Quando ele se formou em Direito, pela Universidade Federal do Paraná, ali pelos finais dos anos 1950, quis fazer carreira em Santo Antônio da Platina. Foi para lá, alugou uma casa com vista bonita para a praça Frei Cristóvão Capinzal, situada em frente (a praça era bem mais bonita do que hoje), e convidou-me para ser, digamos, seu secretário. Seria bom arranjo para mim, um adolescente até então sem trabalho, pois cumpriria expediente só depois do almoço, após as aulas matinais no ginásio. Assim comecei a frequentar o escritório do dr. Edeval, e sentava-me a uma mesinha na saleta que dava para a porta de entrada, à espera de recepcionar os possíveis e desejados clientes. Mas eram tempos difíceis para advogado recém-formado iniciar carreira em Santo Antônio da Platina. Cidade pequena, com vários advogados renomados com escritórios havia muito instalados, oferecia reduzida chance para os novatos. Desse modo, nas tardes vazias de clientes, conversámos, e fui depositário de algumas confidências suas, na certeza de que eu era um túmulo para as revelações, virtude que me marcou na infância, deu-me fama junto a meus irmãos e me fez, a justificar a confiança de que me orgulhava, conservá-la pelo resto da vida
          A convivência não foi longa, infelizmente. Os clientes não apareciam, as contas do mês venciam, as economias que Edeval possuía, se é que as tinha, se foram, e ele fechou o escritório, entristecido e decepcionado. Não fora um bom começo, era verdade, embora qualidades não lhe faltassem. Moço muito inteligente, estudioso, de raciocínio rápido, bom argumentador e orador, carregava o ferramental necessário para o sucesso na profissão. Resolveu mudar-se para Ribeirão do Pinhal, e a decisão foi afortunada. Lá, fez carreira brilhante, constituiu família e, certa altura, deu-se o luxo de parar com a advocacia para tornar-se fazendeiro criador de gado.
          Daqueles dias de convívio no escritório em Santo Antônio da Platina, guardo a lembrança de folhear, pela primeira vez, um tratado de medicina legal, indicado por Edeval para me ajudar a passar as tardes ociosas. Esse detalhe, mais outras circunstâncias, como a mania de ser advogado que havia em minha família, acabaram me movendo para o estudo do Direito, e aí começaria outra história que não interessa aqui. Importa dizer, agora, que guardo de meu primo Edeval Gonçalves Azevedo lembrança boa, terna, daquelas que fazem bem a gente abrigar na memória. Lá, ninguém morre.


Novembro de 2016.     

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