quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O tempo

O tempo
Cardosofilho

          “Está vendo aquela moça ali?” Ele a apontou com o dedo indicador da mão que segurava o copo de uísque. Ela encontrava-se sentada à uma mesa próxima. Sim, o amigo a via. “Linda, não?” O amigo concordou com a cabeça, era, de fato, bem bonita. “Pois olha”, retomou o primeiro, “essa beleza física não é dela. Ela pensa que lhe pertence, vai viver alguns anos iludida pela vaidade, mas o dono verdadeiro de sua formosura é o tempo. Ela descobrirá lá na frente que é assim. Somos como esculturas de areia; o tempo é o vento que sopra e vai nos mudando e retirando, aos poucos, a beleza, a juventude. Desfazendo, entende?”.  Fez breve pausa, tomou mais um gole do uísque e continuou com sua filosofia brotada, talvez, da bebida: “Nada nos pertence; o tempo é o dono de tudo e tudo ele leva embora, de algum modo, algum dia. O presente é quase nada. Experimente: feche e abra a mão. Viu? O presente escapou e você nem percebeu. O gesto já pertence ao passado. Assim faz o vento do tempo, passa despercebido e vai nos alterando, nos envelhecendo, tirando coisas, amores, vaidades e tudo mais. Por fim, nos mata”. Novo silêncio enquanto girava o gelo no copo. “E se me perguntar qual a minha fisionomia, responderei que não sei. Eu não percebo no dia a dia, mas as fotografias tiradas ao longo dos anos revelam as mudanças. Nelson Rodrigues já dizia que a verdadeira face é a do morto. O cronista sabia das coisas. Verdadeira porque é a última, é a que fica. É quando o tempo a abandona. Ele sopra apenas sobre os vivos. A face morta, o corpo morto, não interessam mais, já cumpriram a missão, já se renderam para sempre ao senhor supremo”. Bebeu o último gole do uísque já aguado, esperando o garçom. “É assim, amigo. Sobra-nos mesmo é o passado, só as lembranças, se a mente não atraiçoa”. Emudeceu, e o silêncio tinha algo de solene, como se emprestasse mais gravidade e peso ao que acabara de dizer.
           O que ouvia olhou em torno. Os garçons circulavam servindo bebidas e canapés, cristais tiniam, de um canto do ambiente as notas da canção “Manhattan” escapavam de um piano dedilhado como se fosse por Carmen Cavallaro, e o ambiente banhava-se na claridade suave que descia de antigo e pesado candelabro pendente no centro do salão. Sob a luz dourada, belas mulheres e elegantes cavalheiros conversavam, riam e flertavam, animados pelo clima festivo e pelos coquetéis. E apreciando as falas, risos e gestos, a agitação levemente embriagante, o colorido e brilho dos vestidos longos, ele refletiu melancolicamente que também aquele momento alegre e perfumado ia se despedindo, se diluindo e se enfiando no passado. E pediu ao garçom que passava mais uma dose de uísque.


Agosto de 2016.

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