quinta-feira, 23 de julho de 2015

Exemplo platinense

Exemplo platinense


Cardoso Filho
Fosse nos antanhos, a notícia talvez não atravessasse a ponte do rio Jacaré, ou a do rio das Cinzas. Hoje, porém, o mundo é uma aldeia e as notícias voam e chegam a toda parte na instantaneidade da internet e suas redes sociais. Foi por esse caminho que minha conterrânea Adriana Oliveira adquiriu, num zás-trás, notoriedade nacional, ao liderar mobilização popular que impediu os vereadores de Santo Antônio da Platina de dobrar os próprios subsídios e o do prefeito, para a próxima legislatura. Sem entrar no mérito se vereador deve ou não ser remunerado, ou se, no caso, ganham muito ou pouco, importa que o povo platinense fez valer sua vontade e Adriana foi a voz que arregimentou e canalizou uma energia que, sem sua iniciativa, teria se dispersado em críticas isoladas e murmuração, sem ressonância e consequência.
          O episódio ilustra bem os novos tempos. A internet mudou o mundo, ao dar a rapidez do relâmpago às comunicações e espantosa força às mobilizações populares, ainda que nem sempre para o bem.  O lado bom é que o povo ganhou voz e capacidade de aglutinar-se rapidamente, para lutar pelo que considera certo e justo. Além do mais, o ocorrido em Santo Antônio da Platina reafirma uma verdade crucial: político teme o clamor das ruas. Pressionado, ele age, se mexe, se explica, se corrige, e o que vale para o âmbito municipal vale para o estadual e federal. Também lá em cima, nas altas esferas, os homens tremem diante do rugido das massas. Infelizmente, o contrário é igualmente verdadeiro: o silêncio e a passividade do povo abonam-lhes os desvios de conduta, a omissão e o descaso, males que conhecemos e pelos quais vamos pagando caro.
          Hoje, portanto, a democracia se expressa com muito mais efetividade e vigor por meio da comunicação cibernética do que pelo voto. Este silencia na urna como se morresse, sem voz de cobrança, enquanto a internet permite a pronta manifestação e mobilização da opinião pública a respeito de temas de interesse geral.
          Na esteira disso tudo, vem aí o 16 de agosto, um domingo. Nova manifestação popular está sendo convocada pela internet, em protesto contra os desmandos praticados pelos governos do Partido dos Trabalhadores – PT, traduzidos em recessão econômica, desemprego, inflação em disparada e a corrupção astronômica que horroriza o País. Mais uma vez, é preciso o brado das ruas, mais forte do que nunca, em apoio ao combate aos ladrões da Pátria. O silêncio é cúmplice da impunidade. Mas falo em horror e faço um alerta: nosso horror corre o risco de se relativizar. Os números espantosos da corrupção, de tão repetidos no noticiário, podem perder a força de expressão, a força de impacto. O sujeito ouve ou lê as cifras, acostuma-se com os números escabrosos e mal avalia o que representam, a ponto de considerar dois, três milhões de reais como desprezível dinheiro de troco. Afinal, que são alguns milhões num universo de bilhões, não é mesmo? E se os números perderem o poder de afrontar, ficará mais fácil engolir a tese criminosa de que a corrupção é coisa antiga neste Brasil malandro, faz parte do jogo, sem ela não tem obras, o país não constrói e não cresce. Um pecado a ser remido com três ave-marias e um pai-nosso.

Julho de 2015.

           

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