segunda-feira, 2 de abril de 2018

Um poeta

Um poeta




Tenho minhas dúvidas sobre qual a maior vocação de José Wanderlei Rezende. Um mais desavisado diria que era a de ser juiz. Realmente, ele foi um brilhante magistrado e fez uma carreira extraordinária, aposentando-se como desembargador. Buscar a verdade e julgar com justiça foi o seu lema. Defender os interesses de crianças e adolescentes foi o seu ideal.
Revelou-se também um excelente professor.
Mas para quem sabe ouvir o coração, logo constataria que a sua maior vocação era a poesia. Sua alma sensível, calejada pelas experiências da vida, sabia transformar o sentimento que habita as profundezas do ser humano em poemas.
Um dia alguém desejou saber onde estava Deus. Ele logo percebeu que o inquiridor estava perdido, descrente, caminhando rumo ao precipício.
Então, respondeu-lhe, com um poema:
“Minha alma atravessou as nuvens alvas/ ganhou levemente o espaço;/ percorreu os astros e as galáxias;/ realizou a viagem dos sonhos, alcançando os confins do etéreo,/ com tudo se maravilhando./ A certa altura, divisou,/ sentado num trono dourado/, um querubim e dele indagou ansiosa:/ ‘Onde está Deus?/ Não sabias tu/ que todo o tempo/ estava dentro de ti?”.
Numa outra vez, a sua amada, entristecida com uma decisão que julgava ter sido equivocada, ele a confortou, com o um dos mais belos poemas que a alma humana pode produzir:
“As folhas caídas,/ não se preocupe com elas, meu amor./ Não chore ao vê-las amarelas,/ sopradas ao vento pelas calçadas, ou pela relva./ Elas cumpriram sua missa vital/ e não caíram sem um motivo nobre;/ foi tão somente pela vontade d’Ele./ Se é seu destino que procura/, não se aflija quando tomar o atalho aparentemente errado./ É lá na frente/ e somente lá,/ que compreenderá a caridade que lhe foi feita./ É lá então, já folha caída,/que compreenderá o significado de seus dias”.
Para tristeza de seus familiares, amigos e fãs, no dia 20/03/2016 sua existência terrena chegou ao fim e ele escreveu, silencioso, o seu último poema, um grito mudo, que falava da alegria de ter vivido; de ter sido um juiz justo; um marido, pai e avô maravilhoso, e, sobretudo, um poeta extraordinário.
Quando estava para descer ao túmulo, já “Folhas Caídas”, eu me lembrei desse seu poema. Alguém (uma colega, fugiu-me o nome agora) o buscou pelo celular, através da internet e eu fiz a sua leitura. Enquanto eu o lia, uma pequena folha veio voando pelo espaço, saída não se sabe de onde, e pousou sobre a minha cabeça. Outro alguém a viu e me alertou. Comovido, eu a peguei e dei-a para a sua filha, Cibele, guardar.
Certamente foi a maneira que o poeta se valeu para dizer: “Eu estou aqui e continuarei vivendo no coração de cada um de vocês”.


escritor Desembargador Gilberto Ferreira



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